Recorte da tela Angelus Novus, de Klee
A vida é uma causa perdida

Com os escombros da covid-19, ergueremos um monumento à nossa ruína | #007

| A vida é uma causa perdida é uma série de textos que têm como tema as coisas inúteis da vida, que, não por acaso, tendem a ser suas belezas |

rico machado

Há dois anos o bordão nacionalista-teocêntrico “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” ganhou a boca mentirosa dos odiosos de plantão. Centenas de milhares de pessoas vestiam verde amarelo e professavam uma mudança para o país. De fato, o Brasil mudou. Para pior.

Testemunhamos e vimos materialmente a expressão “Aqui tudo parece / Que era ainda construção / E já é ruína”, da canção de Fora da Ordem, de Caetano Veloso. Compreendemos, com clareza cristalina, cujas mentes obtusas se esforçam em negar, a força do ódio na edificação de um “país” que não é um país. Hoje, são mais de 173 mil mortos por covid-19 e parece que essa contabilidade macabra não choca mais ninguém.

Talvez pudéssemos, do ossário continental que se torno o Brasil, construir uma ponte para o futuro, que, aliás, nos prometeram cinicamente. O mote serviu para restringir direitos sociais, trabalhistas e previdenciários, estes ainda por vir.

Conseguimos destruir a possibilidade de futuro, instaurando um presente que tem mais o jeito de caricatura horripilante do passado que qualquer outra coisa. Resta-nos, então, com os escombros da covid-19 contruir um monumento à nossa ruína.


Tela Angelus Novus de Klee
Reprodução da tela Angelus Novus de Klee

Nosso trágico desfecho só não é mais inevitável porque ainda há povos que preservaram a memória e a prática de viver em harmonia com o planeta. Tratam-se dos inúmeros povos nativos, cujo atual governo, inclusive, esforça-se por empreender um projeto etnocida, quando não genocida, contra estas populações.

Quem nos assombra, arremessando à nossa cara o horror que nos próprios construímos, não é nenhum demônio ou coisa assim, mas o anjo da história, lembrado por Benjamin, que joga aos seus pés as ruínas de nosso passado e vê diante de si a grande catástrofe que produzimos.

Nós, os autores desse monumento à nossa ignorância e autocentralidade destrutiva, estamos de costas para o anjo da história. Tendemos a ser movidos pela mesma tempestade que imple o anjo para o futuro e o impede de fechar suas asas. Somos arrastados por uma ideia difusa e assassina a que chamamos progresso, mas que, no fundo, é a tempestade que cedo ou tarde nos devorará.

Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Nele está desenhado um anjo que parece estar na iminência de se afastar de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, seu queixo caído e suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu semblante está voltado para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as arremessa a seus pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que o anjo não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele volta as costas, enquanto o amontoado de ruínas diante dele cresce até o céu. É a essa tempestade que chamamos progresso.

(Walter Benjamin, Sobre o conceito de História – p. 245-246, em Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura)

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Jornalista, mestre em Comunicação e Especialista em Filosofia. É doutorando em Cultura e Significação na UFRGS, onde realiza pesquisa relacionando antropofagia e semiótica.

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