Ritual Antropófago, Wikimedia Commons
A vida é uma causa perdida,  Antropofagia,  Ensaios

Bárbaros Alexandrinos. O Brasil e a América Latina na vanguarda da literatura universal | #004

A vida é uma causa perdida é uma série de textos que têm como tema as coisas inúteis da vida, que não por acaso tendem a ser, justamente, suas belezas


rico machado

Talvez a mais artificial das categorias seja a noção de “universal”, seja na filosofia ou na literatura. Kant* quando afirmava sua lei moral – “Duas coisas me enchem o espírito de admiração e de reverência sempre nova e crescente, quanto mais frequente e longamente o pensamento nelas se detém: o céu estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim” –, que é verdadeiramente bela, pensava essa moralidade a partir de um universal cuja experiência estava restrita a Königsberg, cidade onde viveu e morreu.

A experiência histórica, no entanto – e aqui não se trata de fazer juízos anacrônicos a respeito da moralidade kantiana –, mostra que nós, os Bárbaros Alexandrinos, nascidos sob os trópicos, temos muito mais a oferecer em termos de valores universais que os autocentrados europeus.

Haroldo de Campos, Wikimedia Commons
Haroldo de Campos, Wikimedia Commons

A proposição não é nova nem original. Poderíamos remeter primeiramente a Oswald e à Antropofagia, nossa mais original e originária “teoria de exportação”. Tudo começou quando comemos o Bispo Sardinha, em 1556, o ato inaugural do primeiro registro da “diferença” como valor universal.

A expressão “Bárbaros Alexandrinos” é de Haroldo de Campos, em Metalinguagem e outras metas, e compreendê-la implica, também compreender a razão pela qual somos nós, os brasileiros e os latino-americanos, os verdadeiros posseiros (não se trata de ser “dono”) da concepção mais profunda de “universal”. Isso porque ao devorarmos o universal literário (e porquê não filosófico) do ancien monde somos nós a produzir uma literatura planetária.

(…) os europeus, já a esta altura, têm de aprender a conviver com os novos bárbaros que há muito, num contexto outro e alternativo, os estão devorando e fazendo deles carne de sua carne, osso de seu osso, que há muito os estão ressitentizando quimicamente por um impetuoso e irrefragável metabolismo da diferença. (E não só europeus: ingredientes orientais, hindus, chineses e japoneses, têm entrado no alambique “sympoético” desses neo-alquimistas: em Tablada e Octavio Paz; nos “senderos bifurcados” de Borges e nos ritos iniciáticos do Elizondo de Farabeuf; em Lezama e Severo Sarduy; em Oswald de Andrade e na poesia concreta brasileira, por exemplo). – Haroldo de Campos, Metalinguagem e outras metas, p. 250


Cumpre ainda notar um último aspecto. A Antropofagia, modelo de pensamento que está por trás da proposição haroldiana, corresponde à nossa mais original teoria, como ressaltamos anteriormente. Tal afirmação também não é original. Viveiros de Castro foi quem sublinhou enfaticamente tal aspecto.

A Antropofagia foi a única contribuição realmente anti-colonialista que geramos, contribuição que anacronizou completa e antecipadamente o célebre clichê cebrapiano marxista sobre “as idéias fora do lugar”. Ela jogava os índios para o futuro e para o ecúmeno; não era uma teoria do nacionalismo, da volta às raízes, do indianismo. Era e é uma teoria realmente revolucionária.  – VIVEIROS DE CASTRO, Encontros, p. 168

Décio Pignatari, Poesia Concreta
Décio Pignatari, Poesia Concreta

A referência às “ideias fora do lugar” é uma cutucada a Roberto Schwarz, no livro Ao vencedor as batatas, no qual o argumento central é que “Ao longo de sua reprodução social, incansavelmente o Brasil põe e repõe idéias europeias, sempre em sentido impróprio. É nesta qualidade que elas serão matéria e problema para literatura” (p. 29). O problema aqui, que se repete em muitas análises pretensamente progressistas, é o de tomar a Europa como referente, ainda que numa dialética marxista, quando na verdade o necessário é, como dizia Haroldo, uma “dialética marxilar” (p. 250), que aponta para uma nova forma de relação, não em direção à identidade – qual seja, brasileira ou europeia – mas em direção à alteridade. O universal, nesse sentido, é a diferença que como dizem os versos de Elisa Lucinda, em Poema do semelhante, “nos papel carboniza”.


* A noção de universal não está restrita a Kant. Outros autores se debruçaram sobre o tema. A citação remete, no entanto, a um dos autores mais conhecidos de velho mundo.


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Jornalista, mestre em Comunicação e Especialista em Filosofia. É doutorando em Cultura e Significação na UFRGS, onde realiza pesquisa relacionando antropofagia e semiótica.

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