Multinaturalismo e Perspectivismo ameríndio

Sinteticamente, podemos dizer que o Multinaturalismo e o Perspectivismo Ameríndio têm relação com uma visão filosófica que sustenta que a percepção e o pensamento se constituem a partir de uma perspectiva e que, portanto, é mutável. A aparente banalidade da explicação ganha contornos mais complexos quando se leva em conta duas de suas premissas básicas: 1) o mundo é constituído por muitos tipos de humanidades (não restritas à espécie homo sapiens) que são dotadas de consciência e cultura, diferenciando-se, portanto, por seus corpos; 2) cada espécie, por assim dizer, vê os seus como humanos e os demais como não-humanos, o que inclui outras espécies de animais, mas também espíritos.

“A grande divisão mítica mostra menos a cultura se distinguindo da natureza que a natureza se afastando da cultura: os mitos contam como os animais perderam os atributos herdados ou mantidos pelos humanos” (VIVEIROS DE CASTRO, 2002, p. 355).

É importante não confundir o perspectivismo com a perspectiva. Embora não sejam oposições, a perspectiva poderia ser entendida como o ponto de vista do sujeito ao passo que o perspectivismo é um modo de compreender o mundo sem reduzi-lo à própria perspectiva. Igualmente importante é não confundir o perspectivismo com o relativismo, como destaca Viveiros de Castro, um dos mentores do conceito.

“Trata-se da concepção, comum a muitos povos do continente, segundo o qual o mundo é habitado por diferentes espécies de sujeitos ou pessoas, humanas e não-humanas, que apreendem segundo pontos de vistas distintos. Os pressupostos e consequências dessa ideia são irredutíveis ao nosso conceito corrente de relativismo.” (VIVEIROS DE CASTRO, 2002, p. 347).

Imagem: reprodução YouTube

Perspectivismo

Voltemos um pouquinho para pensar o que seria uma genealogia do perspectivismo. Chamamos atenção particularmente para Leibniz e a noção de mônada (2009), a Gabriel Tarde que retoma certos princípios leibnizianos, mas apresenta outras nuances (2018), a Peirce e sua perspectiva pragmaticista (2015) até chegarmos em Viveiros de Castro e o chamado Perspectivismo Ameríndio (2002). Concentraremos nossa energia às explicações do perspectivismo ameríndio, descrito e interpretado por Viveiros de Castro a partir do aparato teórico e metodológico da Antropologia.

O que é o Perspectivismo Ameríndio?

É possível pensar o Perspectivismo Ameríndio também como uma tradução antropológica daquilo que poderíamos chamar, nos termos ocidentais, de uma ‘racionalidade ameríndia’ um “filosofia indígena”. É importante compreendê-lo com uma visão sobre o cosmos (é mais que uma visão do mundo), a qual não parte do antropocentrismo e, por isso, não reconhece a cultura como uma invenção única da espécie humana e tampouco como eixo organizador central das sociabilidades, mas como parte de uma relação intrinsicamente ligada à natureza. A radical sepração sujeito-objeto, que orienta a forma de relação humana com os demais entes do universo, não é a chave de interpretação do perspectivismo.

Na prática isso significa que todos os seres do universo têm cultura – os humanos, as abelhas, as onças, os espíritos, etc – o que os diferencia é sua natureza, razão pela qual a cultura é experimentada e expressa de formas diferentes nos diversos seres. Daí vem a ideia de Multinaturalismo, que não deve ser confundida com o multiculturalismo de viés ocidental. Os objetos do mundo no multinaturalismo possuem uma característica particularmente ambígua, pois ao mesmo tempo que apontam para si próprios apontam também para os sujeitos e os (re)constituem, de modo que…

“… o perspectivismo ameríndio procede segundo o princípio de que o ponto de vista cria o sujeito; será sujeito quem se encontrar ativado ou ‘agenciado’ pelo ponto de vista.” (VIVEIROS DE CASTRO, 2002, p. 373)

É importante considerar que no multinaturalismo, segundo explica Viveiros de Castro (2002, p. 361), coisas que consideramos simples artefatos brutos transformam-se em objetos altamente complexos e civilizados dependendo do ponto de vista que se agencia sobre tais objetos. 


Humanidade saturada

Os povos da floresta vivem em mundo saturado de humanidade, onde todos seres visíveis e invisíveis são capazes de agência humana, de acordo com a tese do Multinaturalismo. Isso porque a condição universal a todos os seres é a humanidade, enquanto a dimensão particular é caracterizada pela diversidade dos corpos. Portanto, não é a animalidade que nos costura em equidade, mas a humanidade, que não está restrita aos sapiens. Tais perspectivas teóricas têm como base a defesa à riqueza epistemológica dos povos nativos do Brasil.

Do ponto de vista teórico, as baes do conceito estão fincadas nos artigos Perspectivismo e multinaturalismo na América indígena de Viveiros de Castro ([1996]2002), e O dois e seu múltiplo: reflexões sobre o perspectivismo em uma cosmologia tupi, de Tânia Stolze Lima (1996). A tese central diz respeito à noção de que o valor universal compartilhado por todas as espécies é a humanidade (somos todos – os sapiens e os bichos – humanos em nossos departamentos), ao passo que o particular é o tipo de corpo ao qual pertencemos.

Cultura e Natureza

Somos todos humanos porque todos temos a mesma cultura. Por exemplo, pensamos nas bebidas cerimoniais, em que os ocidentais bebem cerveja, a onça sangue de sua caça e os indígenas o cauim. Esta mesma cultura se expressa de formas distintas porque nos diferimos a partir de nossos corpos, que pertecem cada um à sua própria natureza.


Breves considerações sobre o Multinaturalismo

Duas considerações sobre o Multinaturalismo e o Perspectivismo Ameríndio são indispensáveis à compreensão do uso dos termos:

1 Em suma, o conceito “trata-se da concepção, comum a muitos povos do continente, segundo a qual o mundo é habitado por diferentes espécies de sujeitos ou pessoas, humanas e não humanas, que o apreendem segundo pontos de vistas distintos (VIVEIROS DE CASTRO, 2002, p. 347), como já descrevemos anmteriormente. Além disso…

2 …a prudência científica recomenda que não tratemos Perspectivismo ameríndio e Multinaturalismo como sinônimos, embora pareçam. São, antes disso, conceitos complementares, mas muito convidativos à confusão, no qual o Multinaturalismo parece ser a forma ontológica do Perspectivismo ameríndio. É como se um estivesse contido no outro. A certa altura o autor argumenta…

O perspectivismo não é um relativismo, mas um multinaturalismo. O relativismo cultural, mm multiculturalismo, supõe uma diversidade de representações subjetivas e parciais, incidentes sobre uma natureza externa, uma e total, indiferente à representação; os ameríndios propõem o oposto: uma unidade representativa ou fenomenológica puramente pronominal, aplicada indiferentemente sobre uma diversidade real. Uma só “cultura”, múltiplas “naturezas”; epistemologia constante, ontologia variável – o perspectivismo é um multinaturalismo, pois uma perspectiva não é uma representação.” (VIVEIROS DE CASTRO, 2002, p. 379).


Créditos

Texto | Ricardo Machado
Imagem da abertura | Reprodução Vímeo, vídeo Antropofagia Pinacoteca de São Paulo


Quer saber mais?

Bem, o texto acima é uma apanhado geral e rigoroso do ponto de vista da apuração e redação, mas ainda assim simplificado sobre o Multinaturalismo e o Perspectivismo Ameríndio. Se você quer aprender mesmo sobre o assunto, não tem jeito, é preciso se aprofundar nas leituras.

Abaixo deixamos algumas referências que ajudaram a compor o artigo.

Referências

LEIBNIZ, Gottfried Wilhelm. A monadologia e outros textos. São Paulo: HEdra, 2009.

______. Discurso de metafíscia. São Paulo: Ícone editora, 2004.

LÉVI-STRAUSS, Claude.  O pensamento selvagem / Claude Lévi-Strauss; Tradução: Tânia Pellegrini – Campinas: Papirus, 1989.

LIMA, Tânia Stolze. O dois e seu múltiplo: reflexões sobre o perspectivismo em uma cosmologia tupi. Revista MANA 2(2):21-47, 1996.

PEIRCE, Charlie Sandres. Semiótica. 4. ed. São Paulo: Perspectiva, 2010. Tradução de: José Teixeira Coelho Neto.

TARDE, Gabriel. Monadologia e sociologia: e outros ensaios. São Paulo: Editora Unesp, 2018.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. A inconstância da alma selvagem e outros ensaios de antropologia. São Paulo: Cosac Naify, 2002.

______. A revolução faz o bom tempo. Realização de Os Mil Nomes de Gaia. Rio de Janeiro, 2015. Son., color. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=CjbU1jO6rmE>. Acesso em: 23 set. 2017.

______. Arawete: Os deuses canibais. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1986.

______. Eduardo Viveiros de Castro. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2007. (Encontros).

______. O recado da mata. In: KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: Palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. 729 p. Tradução de: Beatriz Perrone-Moisés.


Como citar este artigo

MACHADO, Ricardo de Jesus. Multinaturalismo e Perspectivismo Ameríndio. 2020. Elaborado por Antropofagias. Disponível em: https://antropofagias.com.br/semiotica-da-cultura/. Acesso em: 13 abr. 2020.


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