Quadro do filme Terra em transe, de Glauber Rocha
A vida é uma causa perdida,  Ensaios

Pela harmonia universal dos infernos. Chegaremos a uma civilização! | #006

| A vida é uma causa perdida é uma série de textos que têm como tema as coisas inúteis da vida, que não por acaso tendem a ser, justamente, suas belezas |


rico machado

O delírio do senador Porfírio Diaz, personagem central de Terra em transe (1967), de Glauber Rocha, e seu fascínio pelo poder, ganha ares de realidade no Brasil dos anos 20 do século XXI. Retrato do espírito bragantino e das elites políticas brasileiras, Porfírio Diaz, é a versão ficcional de nossa tragédia real.

No Brasil da covid-19, é a ficção da cloroquina, da invermectina, do ozônio retal que tenta tomar ares de realidade, e a cada pronunciamento em rede nacional é dada mais uma volta no parafuso do transe autoritário.

A gagueira e a falta de vocabulário presidencial, jamais podem ser comparados à riqueza estética da cena de Glauber na coroação de Porfírio Diaz. Para nossa desgraça, é a loucura que conecta ficção e realidade, mas enquanto o Brasil de pé no chão sobrevive à subnotificação do coronavírus, a caquistocracia verde-amarela inventa, “pela harmonia universal dos infernos”, uma civilização que caminha cega, sob seus próprios cadáveres.

Para quem não conhece, esta é uma das cenas mais icônicas do cinema brasileiro, com Paulo Autran, interpretando Porfírio Diaz, olhando para a câmera em close, mostrando, muito antes de Kevin Spacey em House of cards, que o Brasil (e nossa política) não é para amadores.

Aprenderão! Dominarei esta terra. Botarei estas histéricas tradições em ordem. Pela força. Pelo amor à força! Pela harmonia universal dos infernos. Chegaremos a uma civilização!


Bonus track — Golpe de 1964

Reprodução Wikimedia

Há 56 anos, num dia 1º de abril, a República brasileira foi golpeada, mais uma vez, por uma articulação civil-militar, mergulhando o país em uma sombra de 21 anos. O dia da mentira serviu de inspiração para os anos de chumbo, em que sobrou falácias sobre desenvolvimento econômico, intensa perseguição política — inclusive a mulheres e crianças — e, o mais triste de tudo, a invenção de um país que nunca existiu.

Aliás, já que o tema é transe, esse delírio sobrevive nas declarações e ações de parte da população brasileira, principalmente nas elites econômicas, que detesta a diversidade de pensamento e que, como um obcecado compulsivo, vê em todo sujeito crítico um comunista. Sinais do tempo, em que precisamos explicar para pessoas com mais de cinco anos que a terra é redonda.


PS: Na última semana, uma pesquisa do PoderData indicou que o atual presidente tem apoio de 40% dos entrevistados, cuja maioria pertence ao grupo de que tem recebido o auxílio emergencial da covid-19.



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Jornalista, mestre em Comunicação e Especialista em Filosofia. É doutorando em Cultura e Significação na UFRGS, onde realiza pesquisa relacionando antropofagia e semiótica.

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