Manto da Representação - Arthur Bispo do Rosário
A vida é uma causa perdida

A alucinação egóica das “profissões delirantes”, um passeio de trem com Paul Valéry #008

Abro mão da autoria de um texto desta série, A vida é uma causa perdida, por não ser capaz de expressar como certas dimensões da vida contemporânea nada mais são que uma alucinação egóica das profissões delirantes.

O texto a seguir é um trecho do livro Monsieur Teste (São Paulo: Editora Ática, 1996) de Paul Valéry.

A edição brasileira data de um quarto de século atrás. Muita coisa mudou. Passamos da cultura de massa para a cultura digital, com suas inúmeras redes sociais e dispositivos de disputa narcísica. Concedo ao leitor a liberdade de fazer as aproximações que lhe parecerem adequadas. Ficam por aqui minhas, já demasiadas, considerações.

A imagem que ilustra esta postagem chama-se Manto da Representação, obra de arte Arthur Bispo do Rosário (que no futuro merece um texto totalmente dedicado a ele), cujas vicissitudes da vida o transformaram em um dos mais fascinantes artistas do Brasil e sua arte uma das mais sublimes expressões estéticas do século 20.

Eis o texto na íntegra.

Trecho do livro Monsieur Teste, de Paul Valery

Paul Valéry

Meu amigo, eis-me aqui longe de ti. Conversávamos, e estou te escrevendo. É, se assim se pode dizer, uma coisa muito estranha.

Verás que estou disposto a me encantar.

O próprio retorno a esta Paris, após uma certa ausência, apareceu-me de certa forma metafísica. – Não falo apenas do retorno material, duro sacrifício de uma noite ao escândalo e aos sacolejos. O corpo inerte e vivo entrega-se aos corpos mortos e moventes que o transportam. O expresso tem uma ideia fixa que é a Cidade. Somos os prisioneiros de seu ideal, o joguete de seu furor monótono. (…) Embriagamo-nos de fantasmas que giram, de visões derramadas no nada, de luzes arrancadas. O metal moldado pela marcha na escuridão faz sonhar que o Tempo pessoal e brutal ataca e desagrega a dura e profunda distância. Superexcitado, crivado de sevícias, o cérebro, por si mesmo e sem que o saiba, engendra necessariamente toda uma literatura moderna… (…)

Talvez a eternidade e o inferno sejam expressões ingênuas de alguma viagem inevitável?

Todavia, após tanta agitação de nossos ossos e de nossas idéias nas trevas, o sol e Paris enfim saem do jogo.

Dou esse nome [profissões delirantes] a todas essas profissões cujo principal instrumento é a opinião que se tem de si mesmo e cuja matéria-prima é a opinião que os outros têm de nós. As pessoas que as exercem, destinadas a uma eterna candidatura, são necessariamente sempre afligidas por um certo delírio de grandeza que uma certa mania de perseguição o permeia e atormenta sem descanso.

Paul Valéry

Mas o ser do espírito, – o pequeno homem que está dentro do homem,- (e que é sempre suposto na grosseira imagem que temos do conhecimento), opera por seu lado sua mudança de presença. Ele não circula como a consciência, numa fantasmagoria de visões e num tumulto de fenômenos. Ele viaja segundo sua natureza, e em sua própria natureza. Estimaria muito a mim mesmo se eu soubesse representar sua operação. Se eu soubesse descrevê-la para ti, essa estima por mim cresceria em mim até o infinito. Mas não se trata absolutamente disso… (…)

Tenho muito medo, meu velho amigo, de que sejamos feitos de muitas coisas que nos ignoram. E é nisso que ignoramos a nós mesmos. Se houver uma infinidade delas, toda meditação torna-se vã… (…)

O que é mais cansativo do que conceber o caos de uma multidão de espíritos? – Cada pensamento, nesse tumulto, encontra seu semelhante, seu contrário, seu antecedente e seu sucessor. Tantas similitudes, tantos imprevistos desencorajam-no.

Consegues imaginar a desordem incomparável que 10 mil seres essencialmente singulares mantêm entre si? Pensa na temperatura que pode produzir nesse lugar tamanha quantidade de amores-próprios que nele se comparam. Paris aprisiona e combina, consome e consuma a maioria dos brilhantes desafortunados que seus destinos levaram às profissões delirantesDou esse nome a todas essas profissões cujo principal instrumento é a opinião que se tem de si mesmo e cuja matéria-prima é a opinião que os outros têm de nós. As pessoas que as exercem, destinadas a uma eterna candidatura, são necessariamente sempre afligidas por um certo delírio de grandeza que uma certa mania de perseguição o permeia e atormenta sem descanso. Nesse povo de seres únicos reina a lei de fazer o que ninguém jamais fez, e o que ninguém jamais fará. É a lei dos melhores, ou seja, daqueles que têm a coragem de desejar claramente algo absurdo… Eles vivem apenas para alcançar e tornar duradoura a ilusão de serem sós, – pois a superioridade não passa de uma solidão situada nos limites atuais de uma espécie. Cada um deles funda sua existência na inexistência dos outros, estes de quem devem arrancar seu consentimento de que não existem… (…)

O retrógrado e o avançado disputavam entre si o ponto de onde se cai. As novidades, mesmo as novas, davam luz a consequências muito antigas. O que o silêncio havia elaborado vendia-se aos gritos..

Paul Valéry

Rogo que me desculpes desse abuso que estou fazendo do imperfeito do indicativo; mas ele é o tempo da incoerência, e percebo que estou retratando para ti, se tal coisa pode ser um retrato, a maior incoerência concebível. Eu acrescentaria a isto alguns traços graças a alguns outros imperfeitos.

Eu via em espírito o mercado, a bolsa, o bazar ocidental das trocas dos fantasmas. Estava ocupado com as maravilhas do instável, com sua espantosa duração, com a forçaa dos paradoxos, com a resistência das coisas gastas. Tudo se tornava figura. As lutas abstratas adquiriam a força de mascaradas. A moda e a eternidade se digladiavam. O retrógrado e o avançado disputavam entre si o ponto de onde se cai. As novidades, mesmo as novas, davam luz a consequências muito antigas. O que o silêncio havia elaborado vendia-se aos gritos… Por fim, todos os acontecimentos espirituais possíveis se produziam rapidamente frente a minha alma semi-adormecida. Ela era tomada pelo terror, pelo nojo, pelo desespero, e por horrível curiosidade, contemplando, totalmente cansada e confusa, o espetáculo ideal desta imensa atividade que chamamos de intelectual…

– INTELECTUAL?…

Esta palavra enorme, que me veio vagamente, bloqueou completamente todo meu trem de visões. Que coisa engraçada é o choque de uma palavra numa mente! Toda a massa do falso em plena velocidade salta bruscamente para fora da linha do verdadeiro…

Intelectual?… (…)

– Intelectual… Todos, no meu lugar, teriam entendido. Quanto a mim!…

– Sabes, querido Outro, que eu sou um espírito da mais tenebrosa espécie. Sabes disso por experiência, e sabes ainda mais por tê-lo ouvido cem vezes dizer. Não faltam pessoas, e pessoas doutas, e benignas, e bem-dispostas, que só esperam para me ler que eu tenha sido traduzido para o francês. Elas se queixam para o público, expõem citações de meus versos nos quais confesso que elas devem ficar embaraçadas. Mais, elas tiram uma glória justa de não ouvir alguma coisa; coisa que outros ocultariam. (…) Quanto a mim, não tenho esperanças de causar problemas a esses amadores de luz. Nada me atrai, além da clareza. Infelizmente, amigo meu! garanto-lhe que quase não a encontro. Deposito tal coisa em teu ouvido tão próximo. Não espalha. Guarda excessivamente meu segredo. Sim, a clareza é para mim tão pouco comum que não a vejo por toda a extensão do mundo – e singularmente do mundo que pensa e que escreve-, senão na proporção do diamante frente à massa do planeta. As trevas que me atribuem são vãs e transparentes perto daquelas que descubro em quase todos os lugares. Felizes são os outros, que combinam entre eles mesmo que eles se entendem perfeitamente! (…)

Desconfio de todas as palavras, pois a menor meditação torna absurdo que nelas se confie. Cheguei, infelizmente, a comparar estas palavras com as quais atravessamos com tanta agilidade o espaço de um pensamento, a leves tábuas lançadas por sobre um abismo, que suportam a passagem, mas não aguentam a demora

Paul Valéry

Minha má consciência sugere-me às vezes que devo incriminá-los para defender-me. Ela murmura que só aqueles que nada procuram nunca encontram a escuridão, e que deve-se propor aos outros apenas o que eles já sabem. Mas examino a mim mesmo no fundo, e devo deveras consentir no que dizem tantos homens distintos. Sou verdadeiramente feito, meu amigo, de um espírito infeliz que nunca tem absoluta certeza de ter entendido o que entendeu sem o perceber. Diferencio muito mal o que é claro sem reflexão daquilo que é positivamente obscuro… Tal fraqueza, sem dúvida, é o princípio de minhas trevas. Desconfio de todas as palavras, pois a menor meditação torna absurdo que nelas se confie. Cheguei, infelizmente, a comparar estas palavras com as quais atravessamos com tanta agilidade o espaço de um pensamento, a leves tábuas lançadas por sobre um abismo, que suportam a passagem, mas não aguentam a demora. O homem em movimento rápido as usa e escapa; mas na menor insistência, esse pouco tempo as rompe e tudo se perde nas profundezas. Aquele que se apressa entendeu; não se deve pesar (…).

Tudo isso poderia levar-me a grandes e encantadores desenvolvimentos dos quais vou poupar-te. Uma carta é literatura. Uma lei estreita da literatura diz que não se deve aprofundar nada. É também esse o desejo geral. Vê por todos os lados.

Assim, estava eu dentro de meu próprio abismo – que por ser meu não deixava de ser abismo -, incapaz de explicar a uma criança, a um selvagem, a um arcanjo – a mim mesmo, esta palavra: Intelectual, que não causa nenhum problema a quem quer que seja.

Não eram as imagens que me faltavam. Mas, ao contrário, a cada consulta de meu espírito em busca dessa terrível palavra, o oráculo respondia com uma imagem diferente. Eram todas ingênuas. Nenhuma exatamente anulava a sensação de não entender.

Eles não pareciam desconfiar de que nossos julgamentos nos julgam, e que nada nos desvenda com maior ingenuidade e expõe nossas fraquezas do que a atitude de julgar o próximo. É perigosa a arte na qual os menores erros podem sempre ser atribuídos ao caráter.

Paul Valéry

Vinham-me nesgas de sonho.

Eu formava figuras que chamava de “Intelectuais”. Homens quase imóveis que causavam grandes movimentos no mundo. Ou homens muito animados, cujas vivas açõe das mãos e das bocas manifestavam potências imperceptíveis e objetos essencialmente invisíveis… Peço-te desculpas por te dizer a verdade. Eu via o que via. (…)

Em seguida, uma luz apocalíptica, pensei entrever a desordem e a fermentação de toda uma sociedade de demônios. Surgiu, num espaço sobrenatural, uma espécie de comédia das coisas que acontecem na História. Lutas, facções, triunfos, execraçoes solenes, execuções, revoltas, tragédias em torno do poder!… Só se falava nesta República, de escândalos, de fortunas fulminantes ou fulminadas, de complôs e de atentados. Havia plebiscitos de câmara, coroamentos insignificantes, muitos assassinatos pela palavra. Não estou falando dos pequenos roubos. Todo esse povo “intelectual” era como o outro. Encontravam-se puritanos, especuladores, prostituídos, crentes que pareciam ímpios e ímpios que se faziam de crentes; havia falsos inocentes e verdadeiras bestas, e autoridades, e anarquistas, e até mesmo carrascos cujas espadas pingavam tinta. E uns acreditavam ser padres e pontífices, outros profetas, outros Césares, ou então mártires, ou um pouco de cada coisa. Muitos consideravam-se, até em seus atos, crianças ou mulheres. Os mais ridículos eram aqueles que se outorgavam as funções de juízes e justiceiros da tribo. Eles não pareciam desconfiar de que nossos julgamentos nos julgam, e que nada nos desvenda com maior ingenuidade e expõe nossas fraquezas do que a atitude de julgar o próximo. É perigosa a arte na qual os menores erros podem sempre ser atribuídos ao caráter.

Cada um desses demônios olhava-se com alguma frequência num espelho de papel; nele considerava-se o primeiro ou o último dos seres…

Logo, avistei a mim mesmo, embora raramente, e com outro rosto; reconhecia-me apenas por uma dor deliciosa que atravessava meu coração. Entre o fantasma e eu, parecia-me que um de nós devesse desaparecer…

Paul Valéry

Eu buscava vagamente as leis desse impróprio. A obrigação de divertir; a necessidade de viver; o desejo de sobreviver; o prazer de causar espanto, de chocar, de bronquear, de ensinar, de desprezar; o aguilhão da inveja, conduziam, irritavam, aqueciam, explicavam este Inferno.

Nele vi a mim mesmo; e com um aspecto de mim que eu desconhecia, que meus escritos, talvez, haviam formado. Não ignoras, caro sonhador, que nos sonhos cria-se por vezes uma concordância singular entre o que vemos e o que sabemos; mas não se trata uma concordância que suportaríamos acordados. Eu vejo Pierre, e sei que é Jacques. Logo, avistei a mim mesmo, embora raramente, e com outro rosto; reconhecia-me apenas por uma dor deliciosa que atravessava meu coração. Entre o fantasma e eu, parecia-me que um de nós devesse desaparecer…

Adeus. Não acabaria mais se quisesse te dar para ler tudo o que veio colorir-se e me confundir nos últimos momentos de minha viagem. Adeus. Esquecia de te dizer que fui arrancado a tais meditações pelo pé duro de um Inglês que amassou o meu sem nenhuma piedade, enquanto o trem negro e suado parava. Adeus.

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Jornalista, mestre em Comunicação e Especialista em Filosofia. É doutorando em Cultura e Significação na UFRGS, onde realiza pesquisa relacionando antropofagia e semiótica.

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