A vida é uma causa perdida,  Ensaios,  Pensamento indígena

A artificialidade universalista da economia de mercado ou A dádiva no deserto da imaginação econômica | #005

| A vida é uma causa perdida é uma série de textos que têm como tema as coisas inúteis da vida, que não por acaso tendem a ser, justamente, suas belezas |


rico machado

Não, este não é mais um post da conhecida, e quase sempre pertinente, crítica à economia de mercado. Pelo menos não em seu sentido mais corrente, que coloca como polo oposto o desenvolvimentismo de Estado. Também não é um post que pretende se inserir em um debate útil. Trata-se, como sempre neste espaço, de um breve comentário (na medida do possível não acadêmico) sobre um capítulo de alguma obra. Neste texto encaramos Sociologia e Antropologia de Marcel Mauss, especificamente o capítulo Ensaio sobre a dádiva. Forma e razão da troca nas sociedades arcaicas.

Desde as sociedades Antigas, especialmente as ocidentais, a troca de mercadorias por moeda [financeira] é uma prática corrente. Essa economia é própria de Estados, em certo sentido, totalitários que, à época, exigiam impostos em troca de benefício algum à população. Esse mecanismo radicalizou-se, isto é, intensificou-se com a modernidade. Para Hobbes a saída do “estado de natureza”, da guerra de todos contra todos era a constituição do Estado soberano. Hoje bem sabemos que sua hipótese se tratava de uma fantasia teórica etnocêntrica, impondo a necessidade de dar corpo ao Leviatã, figura bíblica que viceja até hoje nas versões neoliberal e desenvolvimentista.


Economia da dádiva

Entretanto, muitos povos nativos, de muitas partes do globo – hoje sabemos pela vasta bibliografia etnográfica existente – partilhavam de um tipo de economia que era (e é) orientada pela troca mútua e constante de presentes. A esse tipo de organização, Mauss chamou de “economia da dádiva”. Esse tipo de lógica econômica tem implicações políticas e morais profundas, de tal modo que a acumulação individualista é mal vista e, não somente produtora de rupturas nas trocas sociais, mas também passível de ser compreendida como uma declaração de guerra.

Marcel Mauss, Wikimedia Commons

Há algo importante a ser notado. Toda a troca, qual seja a organização econômica que a oriente, nunca é somente material, envolve dimensões espirituais também. Na língua maori o termo hau desgina o espírito das coisas, de todas as coisas. Se o objeto de troca é resultado da exploração de gentes ou do meio ambiente, logicamente seu consumo trará como efeito consequências negativas. Isso não resolve o problema do capitalismo global, cego a estas outras visões, mas nos oferece uma camada extra de leitura para compreender que os verdadeiros bárbaros são, e sempre foram, os ocidentais.


Troca e retribuição Maori

Mauss cita um texto de R. Elsdon Best, que descreve a complexa cadeia do que chamamos de economia da troca e as obrigações de retribuição.

“Vou lhes falar do hau […] O hau não é o vento que sopra. De modo nenhum. Suponha que você possua um artigo determinado (taonga) e que me dê esse artigo; você me dá sem preço fixado. Não fazemos negociações a esse respeito. Ora, dou esse artigo a uma terceira pessoa que, depois de transcorrido um certo tempo, decide retribuir alguma coisa em pagamento (utu), ela me dá de presente alguma coisa (taonga). Ora, esse taonga que ela me dá é o espírito (hau) do taonga que recebi de você e que dei a ela. Os taonga que recebi pelos taonga (vindos de você), é preciso que eu os devolva. Não seria justo (tika) de minha parte guardar esses taonga para mim, fossem eles desejáveis (rawe) ou desagradáveis (kino). Devo dá-los de volta, pois são um hau do taonga que você me deu. Se eu conservasse esse segundo taonga, poderia advir-me um mal, seriamente, até mesmo a morte. Assim é o hau, o hau da propriedade pessoal, o hau dos taonga, o hau da floresta.”

R. Elsdon Best citado por Marcel Mauss, p. 205

A dualidade econômica é mentira muitas vezes repetida

Não se trata em nenhuma medida de um retorno a formas passadas de organização social (como se nós, os ocidentais, merecêssemos ou fôssemos capazes disso), mas de desnaturalizar artifícios retóricos que tentam embretar o pensamento. A questão a ser colocada diante da provocação que a organização econômica maori nos impõe é se somos capazes de pensar um tipo de economia a partir de outros paradigmas. A julgar pela experiência contemporânea, parece que não.

O debate econômico está restrito à disputa retórica entre os ideias e às ideias neoliberal (de mercado) e desenvolvimentista (de Estado), como se não houvesse nenhuma expriência além desta duas [o reducionismo é proposital, pois apesar de não explicar tudo, ilustra a problemática].

A obra e os argumentos são bem mais complexos que estes rápidos parágrafos. Importante mesmo é saber que por mais que os artifícios retóricos tentem nos impor formas prêt-à-porter de pensamento, há sempre a chance de pensar outramente (pensar com o outro, desde o outro). Sobre o sofisticado pensamento dos povos nativos – a obra trata dos polinésios, mas a prática é comum em povos indígenas do Brasil –, cumpre a nós aprender a ouvir, porque eles e suas cosmovisões, mais do que nunca,  são uma janela para o futuro, não um retrato do passado.


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Jornalista, mestre em Comunicação e Especialista em Filosofia. É doutorando em Cultura e Significação na UFRGS, onde realiza pesquisa relacionando antropofagia e semiótica.

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