Johnny Cash, no clipe de Hurt
A vida é uma causa perdida,  Ensaios

A vida não dá gatilho, a vida é um gatilho. A dor como experiência humana | #003

A vida é uma causa perdida é uma série de textos que têm como tema as coisas inúteis da vida, que não por acaso tendem a ser, justamente, suas belezas


ATENÇÃO! Este post não trata de questões comportamentais sérias como depressão, síndrome do pânico, bornout, stress pós-traumático e outras patologias psicossociais às quais se deve procurar acompanhamento profissional. Tampouco versa sobre discurso de ódio, que jamais pode ser confundido com “gatilho”.

rico machado

Uma das palavras do momento é “gatilho”. O termo é muito usado para se referir a conteúdos, principalmente nas redes sociais, que podem desencadear lembranças negativas nas pessoas. Há anos (pelo menos três) nos Estados Unidos se fala em gatilho, cuja expressão em inglês é Trigger Warning – “aviso de gatilho”. O debate no âmbito acadêmico do país da América do Norte se refere ao aviso e à possibilidade de escolha dos alunos sobre participarem ou não de uma aula – ou parte dela – porque o conteúdo contém temas sensíveis, principalmente os ligados à violência.

Keith Negley (Reprodução NPR)

Aquilo que é considerado capaz de “dar gatilho” não está ligado à defesa de práticas violentas – o que é próprio do discurso de ódio –, mas, meramente, a um tema que visa discutir questões paradoxais de nossa condição humana, especialmente nossa versão mais sombria. Nesse guarda chuva entram debates sobre preconceitos, violência sexual, violência urbana, genocídio, crimes contra crianças, pressão psicológica, assédio moral (no âmbito acadêmico e profissional bastante comuns), etc.

É verdade que estes são temas longe de serem agradáveis, assim como não é agradável nos confrontarmos com argumentos contrários às nossas crenças, o que sempre causa um desconforto enorme, ansiedade, raiva, sentimentos pouco altruístas, inclusive, ou sobretudo, para nós mesmos. Entretanto, como é possível o conhecimento sem o desconforto? Pode se chamar “vida” uma experiência cotidiana sem dor? Se sim, seria esta uma vida humana?


Feita esta introdução, volto às coisas que mais me interessam nesses textos, a arte. Conheci Johnny Cash (cuja indústria cultural foi bastante eficiente em monetizar o fim de sua vida) já bem tarde, lá pelos 25 anos. Hurt sempre foi a música, de seu último álbum, que mais me tocou. Gostava da sonoridade, da melancolia, da voz de Cash, que durante anos sonhei em tê-la bebendo diariamente Jack Daniels, até que parei antes que fosse tarde demais. Mas gostava (e gosto) muito desta canção, principalmente, porque ela me recorda da dor e de como isso é sinal de estar vivo.


Eu poderia ter muitos gatilhos. Muitos. Não vou desfiar meu rosário de derrotas para não entediar ninguém, resumo os eventos mais duros. Com meus 19 anos, meu irmão que sempre me cuidou e que batalhou muito para que eu estudasse morreu. Aos 20 meu pai, que sempre foi bastante ausente, mas era meu pai, morreu. Nos meus 26 minha mãe teve câncer pela primeira vez. Quando completei 30 ela morreu. Some-se a isso, vivi até meus 21 anos em um contexto de pobreza e relativa escassez, mas com muita solidariedade, de muita gente diferente, em distintos contextos, que sempre nos ajudaranm muito.

É óbvio que pessoas diferentes reagem de maneira diferentes a contextos semelhantes. Não me cabe, nem me interesso, julgar ninguém. O ponto é que essas experiências de dor foram “sanadas” por outras dores, menos dolorosas é verdade, que vieram do confronto sincero com o mundo real e da busca por conhecimento. Nunca fui um aluno notável (o que também nunca me interessou), razão pela qual estudar sempre foi (e é) algo que toma muito minha energia, me bato com ideias, com autores, com textos, com argumentos que não entendo e vou indo até que consigo decifrá-los.

Despir-se do embrutecimento causado pelas dores da vida não é nada fácil. Nenhum pouco. Ainda embruteço com muitas coisas, não aceito uma série de eventos e tenho dificuldades de lidar com outros ainda. Tudo isso causa dor. Contudo, em outros aspectos consigo sublimar alguns traumas, mas isso não vem de um desvio da dor, senão do confrontamento direto e sincero. A arte, o cinema, a música, a literatura (no meu caso, sobretudo a literatura), ajudam muito nesse processo, e é deste conhecimento que me refiro. O conhecimento que liberta nunca é instrumental, ele necessariamente não serve para nada, é como o nome desta série A vida é uma causa perdida.

Talvez tudo o que escrevi não faça muito sentido para quem a vida é sinônimo de uma experiência anestésica. Nestes casos, os gatilhos podem e devem ser avassaladores. Mas para quem a vida é um enorme gatilho prestes a disparar, os Trigger warnings são apenas o ressoar do gongo de mais um round.


Leia também!

Jornalista, mestre em Comunicação e Especialista em Filosofia. É doutorando em Cultura e Significação na UFRGS, onde realiza pesquisa relacionando antropofagia e semiótica.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *