Mussolini, um retrato atual e fiel do nosso tempo
Série dirigida por Joe Wright e estrelada por Luca Marinelli traça um panorama preciso, dramático e cinematograficamente irreparável do fascismo de nossos dias
O fascismo é o domínio da força. É a vontade de poucos imposta sobre a vontade de muitos. É opressão. É livre-arbítrio. É a lei do mais forte. É ódio, é excitação de massa, é raiva, é desprezo pela fraqueza e pela dúvida. É a lei do bastão contra o caos da mente! É decisão contra mediação! É a rejeição da concessão! É o novo contra o velho! É ser sempre, sempre contra algo ou alguém! E quem entrar no caminho… Esse é o fascismo.
Benito Mussolini
O mal-estar que nos acomete ao assistir Mussolini. O filho do século [M: Il figlio del secolo] (2025) pouco tem a ver com qualquer resgate histórico dos episódios que levaram à ascensão política do Duce, Benito Mussolini. O desconforto não vem da recuperação do passado, mas do radical presenteísmo que o fascismo exerce na política atual, cem anos depois de seu surgimento. Mussolini (tal qual Trump) não é uma excrecência social. Os Camisas Negras [Camicie Nere] (tal qual o ICE) não são abcessos estranhos à política de seu tempo, mas a síntese perfeita de um momento de transição (donde nascem os monstros de Gramsci) que não cessa de acontecer e que aparentemente nunca chega ao fim. Continuamos imersos nele. Tudo está às claras na soturna estética da série dirigida por Joe Wright, com poucas cenas diurnas, planos e diálogos arrebatadores, dignos da excelente tradição do cinema italiano, de Pasolini a Sorrentino (que, a propósito, assina a produção executiva).
Aqui está o meu povo perdido, carente de homens fortes e ideias simples.
Benito Mussolini
A frase acima destacada cabe perfeitamente na boca de qualquer ditador “democraticamente” eleito na atualidade, de Donald Trump a Recep Erdoğan, de Naiyb Bukele a Georgia Meloni. A sentença, porém, sai da boca de Benito Mussolini, interpretado por Luca Marinelli, em uma das primeiras cenas da série. Duce parecer ser o arquétipo perfeito das lideranças populistas de direita que o sucederam, argumento que sustenta o livro de Antonio Scurati, homônimo à série e uma das fontes do seriado em oito episódios.

Permitam-me um desvio. O primeiro dos três volumes da biografia de Getúlio Vargas, assinada por Lira Neto, começa narrando um episódio ocorrido, precisamente, há 95 anos na Bahia de Guanabara, em 15 de janeiro de 1931. Na ocasião, um esquadrão de 11 hidroaviões italianos pousou sob aplausos da população carioca e cujos pilotos foram recebidos, no Palácio do Catete, com pompas diplomáticas oficiais. Ítalo Balbo, um dos mais bárbaros fascistas dos Camisas Negras e o mais jovem dos organizadores da Marcha sobre Roma, foi o representante oficial de Mussolini no encontro com Vargas. “Trago a saudação da Itália fascista ao Brasil novo”, recupera a biografia feita por Lira Neto. Em que pese todas as críticas que devem ser feitas a Vargas, incluindo a partilha de “valores” do fascismo, o ex-presidente brasileiro nunca teve vocação para sabujo. Durante a estada fascista no Rio de Janeiro, que resultaria na compra dos 11 aviões pelo governo brasileiro, pagos em sacas de café represados desde a crise de 1929, Vargas cumprimentou os fascistas com um discreto aperto de mãos, ainda que cada italiano se postasse diante dele fazendo o conhecido gesto com o braço direito em riste.
Voltando à série. A história se passa em uma Itália situada entre a suntuosidade de seus palácios renascentistas e a profunda precariedade periférica de seus cortiços. O futurismo estético e o fascismo político emergem do caldo cultural de uma Itália assolada pela Primeira Guerra. O alto custo humano no combate militar acabou servindo de pretexto e combustível para a radicalização, especialmente de veteranos de guerra, que culminaria no fascismo. Marinetti, que uma década antes da esquadra de Balbo havia feito uma visita ao Brasil e influenciado a primeira onda do modernismo brasileiro, aparece na série, incialmente, como alguém que vê Duce como o bufão que jamais deveria ter deixado de ser. Com o passar do tempo, o futurista perde espaço e é escorraçado do movimento fascista.

Os crimes bárbaros cometidos pelos Camisas Negras incluíam espancamento, assassinato, queima de bibliotecas e jornais, preservando, claro, os veículos de extrema-direita, como Il Popolo D’Itália, dirigido pelo líder fascista e que mais tarde receberia dinheiro das elites financeiras locais. No âmbito privado, Mussolini tinha uma relação absolutamente repugnante com as mulheres com quem convivia, baseada na violação de seus corpos e ideias.
Esta perversidade, tomando-a analogamente com o mundo conteporâneo, ilustra a perfeita e obscena imagem da relação que as corporações de streamings audiovisuais têm com a política atual. Em uma reportagem publicada pela Folha de São Paulo, em setembro de 2025, o diretor afirmou que a produção foi refutada por uma gigante do setor. “Estávamos procurando distribuição nos Estados Unidos, e um dos maiores streamings do mundo nos disse que amaram a série, mas que era muito controversa para eles. O antifascismo hoje ser chamado de controverso é chocante”, diz Wright. Nada me parece mais convincente da importância estética e política do seriado do que a negativa da indústria cultural “4.0” dos EUA em exibi-lo. No Brasil os episódios estão disponíveis na plataforma MUBI.
M. O filho do século não recorre a adjetivos, razão pela qual não apela a clichês. Joga na nossa cara com indefectível clareza o horror do fascismo, mas, repito, não o fascismo do passado, senão o do presente, que atormenta a toda e qualquer pessoa que sabe o que isso significa. Para quem não conhece este ovo da serpente que não deixa de ser chocado e de eclodir, a série é uma boa maneira de compreender a ascensão de um movimento, ao mesmo tempo, brutal e falastrão, que não teme escrever o próprio nome com o sangue de seus adversários.
A experiência histórica e política do Brasil vivida entre o dia 17 de abril de 2016 e 8 de janeiro de 2023, tornam toda a série um pouco menos surpreendente, mas ao menos obriga aos espectadores a chamar as coisas e as pessoas pelo que de fato são. Quanto à experiência histórica vivida no Palazzo Montecitorio, cabe aos italianos (e ao mundo) fazer memória e não repetirem o silêncio cínico, medroso e complacente de quem preferiu calar a enfrentar a besta fera de fardão negro ante o parlamento italiano.
Senhores!
Benito Mussolini
O discurso que estou prestes a pronunciar diante de vocês talvez não possa ser categorizado como um discurso parlamentar. Não é um discurso parlamentar. É uma acusação. Uma acusação contra mim mesmo. Eles gritam: “O fascismo é uma horda de bárbaros acampados no país, um movimento de bandidos e saqueadores. Bem, declaro aqui, diante desta assembleia e diante de todo o povo italiano, que assumo pessoalmente a responsabilidade política, moral e histórica por tudo o que aconteceu. Se o fascismo foi apenas óleo de rícino e bastões e não uma paixão soberba da melhor juventude italiana, a culpa é minha. Se o fascismo foi uma associação criminosa, eu sou o chefe dessa associação criminosa. Se toda a violência foi resultado de um determinado clima político, histórico e moral, eu sou o responsável por tudo isso, porque eu criei esse clima histórico, político e moral! Quando dois elementos estão em conflito e são irredutíveis, a única solução é a força. Nunca houve outra solução na história nem nunca haverá. Basta um que me acuse (no Artigo 47 do Estatuto Albertino) e será meu fim.


