Sem chão – No other land
rico machado
Qual o plano de Israel para os Palestinos?
Não começo com uma pergunta retórica. É uma pergunta real, honesta, que desejo possa ser respondida com humanidade por quem lê. Vejamos o cenário. Em 14 meses, no início da guerra, nada menos que 42 mil mulheres, crianças e idosos foram assassinados pelos ataques militares do Exército de Israel à população palestina na Faixa de Gaza. Ao todo, 75 mil pessoas foram mortas de outubro de 2023 a janeiro de 2025, 50% a mais que os dados divulgados por Israel. Estes números são de um estudo da Revista Científica Lancet, divulgado recentemente, baseado em entrevistas em dois mil domicílios. O que se sabe, até agora, é que o Hamas não foi extinto, apesar da mortande de civis. Mas quem poderia imaginar isso, não é mesmo?
Tanto judeus quanto palestinos são semitas. Tanto judeus quanto palestinos ocupam essa região há dezenas de séculos. Tanto judeus quanto palestinos têm direito ancestral a ocupar o território. Por que, então, dezenas de milhares de mulheres, crianças e idosos são brutalmente assassinados? Por que, do ponto de vista do Ocidente, o holocausto é reconhecido somente quando os crimes são cometidos contra parte dos semitas e não contra todos os semitas? Combater o antissemitismo, dever de qualquer pessoa decente, implica reconhecer sua polissemia étnica, política e a historicidade destes diferentes povos.
Qual o plano de Israel para os Palestinos?
Uma resposta à pergunta está no documentário vencedor do Oscar e da Berlinale de 2025, Sem chão (2025) – cujo título original me parece até melhor, “No other land”. O filme foi produzido por um coletivo palestino-israelense tendo como realizadores principais o palestino Basel Adra, morador da Cisjordânia, e o jornalista israelense Yuval Abraham. A película registra o cotidiano de palestinos que viviam na Cisjordânia e que foram sistematicamente expulsos de suas colônias, tendo as casas, escolas e outros espaços coletivos completamente destruídos. Parte deles passam a viver em cavernas, inclusive idosos, crianças e, ao menos, uma pessoa paraplégica. No entanto, também são expulsos de lá, sim, da caverna.
A experiência cinematográfica é, no entanto, radicalmente desconfortável (e por isso necessária). Para qualquer pessoa que não vive em um enclave, talvez não seja imaginável o que é viver em uma região na qual ir do ponto A ao B requer a autorização de um Estado que não é o seu e, mais do que isso, o vê como inimigo. As gravações ocorreram na aldeia de Masafer Yatta, província de Hebron, entre 2019 e 2023, antes da escalada de violência militar na região. Uma das mais dramáticas cenas é quando crianças são retiradas da escola por militares para que uma patrola coloque todas paredes abaixo. Os olhos minúsculos observam, entre incrédulos e tristonhos, o prédio virar ruína. Que mal uma escola faz a qualquer outra pessoa ou nação? Que risco ela oferece? A quem uma escola ofende?
Qual o plano de Israel para os Palestinos?
A contradição desta pergunta, é que ao mesmo escasseiam e abundam as respostas. O plano expresso de Trump e velado de Netanyahu – oxalá não seja o plano da maioria dos israelenses – é transformar a Faixa de Gaza (outro território palestino, mas com acesso ao mar) em uma espécie de Riviera do Oriente Médio. Olhar para a complexidade das questões políticas envolvendo Israel e o Povo Palestino é algo sempre desafiador.
O hiato geográfico que nos separa não é capaz de nos afastar afetivamente de povos que têm suas vidas sistematicamente destruídas. A experiência da precariedade, mas sobretudo da solidariedade e da compaixão, é comum a muitos povos deste planeta. (Um desvio anedótico: ao longo da infância a da juventude perdi quase todas as coisas da minha casa dezenas de vezes, devido as enchentes que inundavam onde morava).
Qual o plano de Israel para os Palestinos?
O “anjo de história” de Paul Klee, na leitura de Walter Benjamim, voa de costas em direção ao futuro e cujas asas e olhar são arrastados pelas ruínas do presente que virou passado. Gaza foi devastada urbanisticamente pelos bombardeios sobre seu território e socialmente pelas incursões militares a casas, hospitais e, até mesmo, escombros. A pergunta de Adorno – em outros termos, sobre a possibilidade da arte após o holocausto – exige-nos um afastamento da autocomplacência e uma aproximação da autocrítica. Não estou do lado de quem defende de que arte deve ser militante, isso seria domesticar algo cuja natureza é indomestivável. Isso não isenta, porém, a arte de estar diante das grandes interrogações do contemporâneo.

O mesmo ocorre com o pensamento. Pensamento sem crítica não é pensamento. Talvez seja um exercício de vaidade intelectual ou de hedonismo do repertório. Escrever, qual seja e linguagem, dizer a verdade sobre as coisas, chamá-las pelo seu próprio nome, ter a coragem de fazer parte dos derrotados – tal como a irreparável postura de Norman Finkelstein – é a única maneira de salvarmos a nós mesmos. Ao menos enquanto não temos uma reposta clara e efetiva à pergunta que deveria nos assombrar e atormentar incansavelmente.
Qual o plano de Israel para os Palestinos?


