Cena do filme Donnie Darko com o protagonista, sua namorada o coelho gigante que o acompanha
Artes,  Semiótica

Hello Donnie!

rico machado

Hello darkness, my old friend. O encontro com a escuridão, tal como na canção O silêncio da noite, de Simon & Garfunkel, é o contato com o mundo onírico. Ao menos assim aparece em Donnie Darko (2001), dirigido por Richard Kelly. Na sequência final do filme, o último sonho de Donnie não é, a rigor, um sonho. Ele não sonha nada.

A história se passa no contexto cotidiano de uma família estado-unidense e Donnie é um jovem que tem dificuldades de se relacionar com a maior parte de seus colegas. Logo nas primeiras cenas do filme, ele sonha com um coelho gigante que o avisa de que o mundo acabará em 28 dias. Acorda, na manhã seguinte, em um campo de golfe. Sobre seu quarto despenca uma gigantesca turbina de avião. Ninguém na casa fica ferido, apesar do susto.

No decorrer do filme Donnie continua a ter visões com o coelho, que o encoraja a fazer brincadeiras humilhantes com pessoas que o cercam. Mas não são quaisquer pessoas, costumam ser aquelas que detêm algum poder – simbólico ou concreto – no contexto onde vive o jovem.

Na medida em que o filme se passa, os dias antes do anunciado fim do mundo vão se esgotando. A película é tema de um dos capítulos de Semiótica do fim (Editora Sobinfluência: 2025), de Alessandro Sbordoni, um italiano, nativo digital, de 30 anos. O livro pensa o fim do mundo da perspectiva do “semiocapitalismo”, cunhado por Franco (Bifo) Berardi, outro pensador e teórico italiano.

Para Sbordoni o fim do mundo não chegará, porque já vivemos nele. A perspectiva é interessante e aponta para um dado concreto do contexto em que vivemos: o fim do mundo é o fim diversidade das mediações (das semioses). É disso que se trata o “semiocapitalismo” de Bifo, na medida em que todas as mediações no mundo contemporâneo seriam mediações do capital.

A escatologia é própria de um pensamento de intelectuais europeus contemporâneos que, embora muito capazes em fazer bons diagnósticos, se veem parados na encruzilhada derradeira, sem coragem de atravessar a fronteira e pensar o fim do mundo após seu próprio fim. Os exemplos são muitos, de Mark Fischer a Slavoj Zizek, passando por Nick Land e o próprio Bifo. Sbordoni não atravessa a fronteira, mas nos convida a atravessar, o que me parece um avanço.

Good bye Donnie. Voltando ao filme. Ao se encerrar os 28 dias, nas horas finais, Donnie deita em sua cama. Pega no sono, mas ao contrário das noites e dias anteriores, ele encontra-se com a escuridão. Não se trata de uma escuridão no sentido cristão do termo, senão de um encontro com o nada.

Donnie Darko morre num sono sem sonhos – o sono não revela nada, apenas devolve tudo à escuridão. É ali que o futuro – que já passou do fim – sempre esteve

Sbordoni, 2025, pp. 88-89

O fim do mundo oferecido por este instigante filme destoa da tônica da indústria cultural cinematográfica dos EUA. Não há nada grandioso. Não há grandiloquência. Não há um desastre cósmico. Há somente o fim. A escuridão.

Talvez o fim do mundo seja inevitável. Porém não é inevitável pensar o mundo após o fim. É isso que nos ensinam pensadores como Ailton Krenak, Davi Kopenawa, Daniel Munduruku e tantos outros. Mas para isso não podemos deixar de aprender a sonhar. Sequer devemos deixar de sonhar. E, de um modo muito particular, Donnie Darko e o pensamento dos povos da floresta dão as mãos. O fim de Donnie coincide com o fim do sonho, não com o sonho do fim.

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