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Artes,  Comunicação

Nota sobre um jornalismo especulativo

rico machado

Riobaldo nos ensina que o sertão está em toda parte. O filósofo-sertanejo de Grande Sertão: veredas é um sujeito de grande sabedoria, capaz de nos colocar o tempo todo diante de nossa riqueza e miséria existencial. Quem já leu Grande Sertão: veredas sabe que o intelectual é um jagunço. É ele que fala, por exemplo, dos desafios do que significa viver e – no caso dos jornalistas ou comunicadores – descrever e lidar com um país marcado radicalmente pela desigualdade.

“Uma coisa é pôr ideias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias… Tanta gente – dá susto de saber – nenhum se sossega: todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza…”

Guimarães Rosa

Riobaldo nos ensina que ao tomarmos o lugar do outro, não como lugar de fala, mas como lugar de escuta, somos capazes de melhor dimensionar a aflição ou a alegria dos viventes. E aqui estamos diante de uma encruzilhada. Os manuais de jornalismo nos dirão que devemos ser “isentos”, que devemos mostrar os dois lados da notícia, que devemos nos ater aos fatos tal como eles são. Como se os fatos fossem “tal como são” e não “tal como somos”.

Alexandre Nodari nos oferece em sua obra Literatura como antropologia espectulativa (2024), uma série de reflexões que nos ajudam a pensar uma descrição da realidade que seja mais fiel ao mundo em sua diversidade, por isso chama a literatura – no caso a ficcional – de “antropologia especulativa”.

Para que possamos comparar uma coisa com a outra, pensemos em outra obra incontornável da literatura nacional, do gênero jornalístico (o que chamaríamos hoje de grande reportagem), que tem como tema central o sertão. Trata-se de Os sertões (2019) de Euclides da Cunha. Os primeiros excertos que, mais tarde, resultariam na primeira edição d’Os sertões foram publicados no jornal A província de São Paulo, hoje chamado de O Estado de São Paulo. Essas reportagens eram relatos jornalísticos sobre a Guerra de Canudos.

"400 jagunços prisioneiros" - Rendição dos seguidores de Antônio Conselheiro
“400 jagunços prisioneiros” – Rendição dos seguidores de Antônio Conselheiro (Foto: Flávio de Barros – 1897)

Euclides era um jornalista de formação militar, tinha uma visão oficialista sobre o conflito e foi enviado de São Paulo à Bahia para produzir textos com vistas a encerrar a suposta contestação daqueles que eram contrários ao regime republicano. Entre 1897 e 1902 Euclides escreveu o livro, ao longo de um processo de transformação pessoal e de sua visão sobre o conflito, passando a adotar um ponto de vista bastante humanista, dividindo seu livro em três partes: O homem, a luta, a terra. e uma perspectiva estética, trata-se de uma obra um tanto mais literária que jornalística, no sentido estrito. Porém, sua versão mais antropolófica é, no entanto, muito mais fiel à realidade que os relatos publicados incialmente no jornal.

Alexandre Nodari ao propor a literatura como uma espécie de antropologia, recorre a Arregucci para formular a seguinte consideração, que em tudo se aplica ao jornalismo.

O esquema dramatiza esse contacto problemático com o outro, reproduzindo mimeticamente a situação do pesquisador [e do jornalista] que busca o acesso a outra cultura, como um etnólogo improvisado, e, por esse meio, funda uma espécie de antropologia poética, em que a penetração na alma do rústico se encena, ao mesmo tempo, enquanto processo dialógico de conhecimento

Alexandre Nodari, citando Arreguci, p. 146

Isso nos permite voltar, outra vez, à Riobaldo. A todo momento Guimarães Rosa opta por dar voz ao jagunço, que tem como interlocutor um doutor da cidade, a quem se dirige o tempo todo. O autor da obra faz esse gesto como um modo de valorizar o sertanejo e seus modos de compreender o mundo, o que, no gesto de inventar um mundo do sertão, altera o próprio sertão, o sertão, digamos assim, real e geográfico. Isso ocorre na medida em que confere cidadania existencial a um tipo humano rebaixado pelas elites letradas.

Se tomamos como verdadeira e válida a definição de Jacques Ranciére de que “ficção é o ato (…) de inventar mundos que não existem” (2021, p. 7-8), estreitamos ainda mais os laços que unem literatura e jornalismo. Na ânsia de satisfazer os aflitos e afligir os satisfeitos, na conhecida formulação de Ricardo Noblat, continua sendo tarefa do jornalismo inventar mundos que sejam mais inclusivos para as minorias subalternizadas. Um mundo que seja mais acolhedor à diversidade de gênero, menos machista e racista, um mundo, enfim, em que caibam muitos mundos produtores de vida.

Não se trata, sob nenhum aspecto, de inventar mundos que sejam fundados em conspirações ou falsidades em relação aos fatos concretos. Inventar mundos, no sentido restrito que proponho aqui, tem a ver com dar visibilidade a modos de vida existentes, mas que não cabem nas formulações de objetividade jornalística e que produz falsas simetrias, ao colocar no mesmo patamar ciência e terraplanismo, para ficar num exemplo genérico o bastante para que se compreendam meu argumento.

Fazer jornalismo que leve em conta a perspectiva filosófica de Riobaldo, requer que sejamos sempre capazes de nos colocarmos no lugar do outro, sobretudo como um gesto de escuta e podermos contar essa história a partir de um ponto de vista que, certo modo, seja estranho a nós mesmos. Um ponto de vista que seja capaz de alterar a maneira como vemos a nós próprios, revelando, no encontro com a diferença, a nossa própria humanidade, tal como aconteceu com Euclides da Cunha.

O exercício do jornalismo em específico, e da Comunicação em seu sentido mais amplo, é sempre um gesto incompletude. O arco da comunicação é sempre um arco incompleto, há sempre um intervalo que não fecha o círculo, que é preenchido no encontro com o outro, seja na apuração ou concepção de um objeto comunicacional, seja na recepção desses produtos. Na literatura assim também o é. Estar, de certo modo, nu diante do outro, aberto às diferenças e disposto a inventar um mundo decente requer coragem.

É Riobaldo, esta entidade literária-metafísica-filosófica, que nos ensina.

“O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”

Guimarães Rosa

Referências

CUNHA, Euclides. Os sertões. São Paulo: UBU, 2019

NODARI, Alexandre: Litertura como antropologia especulativa. Florianópolis [Desterrro]: Cultura e Barbárie, 2024.

RANCIÉRE, Jacques. João Guimarães Rosa: a ficção à beira do nada. Rio de Janeiro: Relicário, 2021.

ROSA, Guimarães. Grande Sertão: Veredas. São Paulo Companhia das Letras, 2019.

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