Nossa senhora do Nilo, um prelúdio do genocídio
rico machado
Nossa Senhora do Nilo (2019), dirigido por Atiq Rahimi, é um filme absolutamente belo e perturbador. A história se passa na serra de Ruanda, em uma escola católica para meninas, onde há, próximo ao educandário, umas das nascentes do suntuoso e impressionante Rio Nilo, que desce em direção ao norte do continente Africano. O filme foi inspirado no livro homônimo de Scholastique Mukasonga*.
Há muitas camadas na película. Entre elas a questão religiosa e as contradições de um certo moralismo católico, que não tem reservas, em nome da imagem da escola, de violar direitos fundamentais reprodutivos de meninas, a rigor, menores de idade.
Há também questões políticas importantes, sobretudo quando consideramos os impactos da colonização europeia (no caso Belga) no país, na segunda metade do século 20, em meio à Guerra Fria. A história se passa em 1973.
A alternativa Comunista que aparece no filme em um verniz emancipatório não é, porém, mais civilizatória que aquela ocidental e capitalista. Esta, deve-se lembrar, também não apresenta saídas sustentáveis de liberdade e sobrevivência digna. E é, nesse conflito, aquilo que desdobra a questão central do filme, o massacre entre de tutsis e hutus moderados por hutus radicais.
O filme em seu devir cultural adianta uma questão social profunda que nos anos 1990 resultaria no conhecido genocídio de Ruanda, sustentado por uma das marcas mais abjetas do racismo, o racismo biológico. Fundamentado na crença, em tudo falsa, de que há etnias ou raças superiores a outras. Tal aspecto serviria de justificativa retórica ao extermínio de minorias étnicas e raciais.
É, paradoxalmente, um filme belo e que nos oferece um olhar muito arguto sobre as contradições humanas. Certo modo nos oferece uma “cura” (porque nos obriga a ver a realidade) nada balsâmica a um de nossos mais persistentes males culturais. Ou seja, oferece um remédio amargo e doloroso para aquele que parece ser o mais pertinente mal estar na cultura, a intolerância racial. Em uma palavra, o racismo.
*Scholastique Mukasonga (1956): é uma escritora tutsi de Ruanda que atualmente reside na Normandia, França. Foi sobrevivente dos massacres em Ruanda ocorridos na década de 1990.
FICHA TÉCNICA
Título: Notre-Dame du Nil (Original)
Ano produção: 2019
Dirigido por Atiq Rahimi
Estreia: 5 de Janeiro de 2023 ( Brasil )
Duração: 93 minutos
Classificação: Não recomendado para menores de 16 anos
Gênero: Drama
Países de Origem: Bélgica, França, Mônaco e Ruanda


