Os filhos do Padre, uma trágica comédia sobre a hipocrisia eclesial
rico machado
Lançado no Brasil em 2014, Os filhos do Padre, dirigido por Vinko Brešan, é um filme totalmente rodado em uma pequena ilha da Dalmácia, no Mar Adriático. O conflito inicial dá conta da preocupação de um jovem pároco que vai para a região e quer resolver a questão da queda populacional na ilha, pois morrem mais pessoas que nascem. Para dar conta do problema o padre Fabjian (protagonista), mancomunado com Pétar, proprietário de um quiosque de conveniências, passa a perfurar camisinhas, apostando que a divina providência trate de aumentar a natalidade local.
Em linhas gerais esse é o tom da película, o que traz uma série de cenas cômicas e interessantes. Além disso, o filme tem mais de uma década e, a essa altura, se você está lendo este texto não é pequena a chance de tê-lo visto. Por isso, quero me centrar (com o risco de algum spoiler) na questão de fundo da obra: a hipocrisia eclesial.
Vale um breve contexto eclesiástico. O filme foi lançado em março de 2014 e é inspirado em uma peça teatral homônima. Foi rodado durante o papado de Joseph Ratzinger que, mais tarde descobriríamos, contribuiu para o acobertamento de casos de abusos sexuais dentro da Igreja Católica.
E aqui está o verdadeiro conflito do filme, que é precisamente a baliza que define o imperdoável e o “perdoável” dentro daquilo que se costuma chamar “direito canônico”, incluindo aí a obrigatoriedade do pároco em guardar segredo sobre as confissões, quer sejam elas relatos de crimes ou não.
Uma das cenas mais interessantes é quando o bispo chega à ilha. Se aproxima do cais um iate luxuoso, despertando curiosidade nas pessoas (vale dizer que é uma comunidade pequena e de hábitos relativamente modestos, com barcos de madeira). Da embarcação desce um bispo, paramentado como tal, o que sintetiza outra contradição da Igreja, que produz seus príncipes e regra seus súditos.
Algo que aparece em paralelo, são questões políticas, de gênero e a complexidade local das relações entre croatas, sérvios e albaneses. Tudo isso num tom cômico, engraçado, mas que nos encaminha incontornavelmente a um desfecho absolutamente reflexivo.
PS: Em tempos de carnaval, que cristãos (neste caso os evangélicos, especialmente) estão com os olhos bem abertos para o ver o “diabo” dos outros, tanto melhor se dedicarem a encarar seus próprios demônios de batina e solidéu ou de terno e gravata.


