Semiótica da Cultura

A Semiótica da Cultura é um dos ramos dos estudos da Semiótica. Interessa-se particularmente pelos processos de produção de sentidos, a semiose, a partir das engrenagens que conformam a Cultura e suas inúmeras expressões. Sua origem remonta ao Departamento de Semiótica da Universidade de Tartu, na Estônia, nos anos 1960, país que pertencia à extinta União Soviética. Um dos principais nomes ligados a esta corrente teótica é Yuri Lotman, que propôs, a partir de diversos ensaios e artigos, as bases para o que hoje chamamosSemiótica da Cultura.

Alguns princípios centrais para os estudos da Semiótica da Cultura, como descreve a professora e pesquisadora Nísia Martins do Rosário, são os seguintes: 1) cultura nunca é um conjunto universal, mas compõe-se de subconjuntos que se organizam de tal ou tal maneira; b) as linguagens – escritas, visuais, orais, audiovisuais, etc – estão imersas em contextos específicos de uma cultura; c) a heterogeneidade e o poliglotismo fazem parte da Cultura e da Comunicação.

Irina Avramets, Yuri Lotman, Peeter Torop, Mihhail Lotman, Igor Chernov (1992)
(Fonte: Galeria da Escola de Tartu)

Semiosfera

A Semiosfera é o espaço onde ocorre a semiose, isto é, o processo de produção sentido, dentro do qual circulam e interagem os textos que compõem uma determinada Cultura.

Neste sentido, a Semiosfera está ligada a um continuum de formações semióticas que produzem diferentes tipos e níveis de organização dos processos de produção de sentido. O termo é inspirado pela definição de biosfera de Vernadski, mas assume seu acento comunicacional com o prefixo “semio”. Além disso funciona em oposição à noção de noosfera, por não se tratar de algo eminentemente material.

“Como ahora podemos suponer, no existen por sí solos en forma aislada sistemas precisos y funcionalmente unívocos que funcionan realmente. La separación de éstos está condicionada únicamente por una necesidad heurística. Tomado por separado, ninguno de ellos tiene, en realidad, capacidad de trabajar. Sólo funcionan estando sumergidos en un continuum semiótico, completamente ocupado por formaciones semióticas de diversos tipos y que se hallan en diversos niveles de organización. A ese continuum, por analogía con el concepto de biosfera introducido por V. I. Vernadski, lo llamamos semiosfera” (LOTMAN, 1996, p. 11)

Nada pode ser compreendido fora de uma dada semiosfera, qual seja ela. Como define Lotman, a semiosfera é um universo semiótico onde as diferentes linguagens e textos, articuladas entre si, produzirão uma certa tendência interpretativa de acordo com as próprias estruturalidades da cultura[1] em questão.

A Semiosfera é o espaço semiótico fora do qual é impossível a existência mesma da semiose. Assim como unindo diferentes costeletas não teremos um novilho, mas fatiando um novilho poderemos ter costeletas, somando os atos semióticos particulares, não teremos um universo semiótico. Ao contrário, somente a existência de tal universo – da semiosfera – torna realidade o ato sígnico particular. A semiosfera é caracterizada por uma série de traços distintivos. (LOTMAN, 1996, p. 12, tradução nossa[2])

Dentre as características que compõem a Semiosfera, considerando que ela opera, dentre tantas outras coisas, equilíbrios e tensões, cumpre notar algumas delas que nos parecem essenciais para uma mínima compreensão do tema. Um elemento característico a levar em conta é a dimensão abstrata da semiosfera, que, a despeito de não ter uma espacialização em sentido material, é o lócus onde se manifesta aquilo que é próprio da significação, trata-se de um espaço de realização semiótica.

Enquanto a noosfera tem uma existência material e espacial e abrange uma parte do nosso planeta, o espaço da semiosfera tem um caráter abstrato. Isso, no entanto, não significa que o conceito de espaço seja usado aqui em sentido metafórico. Estamos lidando com uma esfera específica que possui os traços distintivos atribuídos a um espaço fechado em si. Somente dentro desse espaço é possível a realização de processos comunicativos e a produção de novas informações. (LOTMAN, 1996, p. 11, tradução nossa[3])

Yuti Lotman, autor do conceito de Semiosfera
(Fonte: Galeria da Escola de Tartu)

Sistemas modelizantes, Códigos Culturais e Textos

Toda cultura estabelece seus códigos. Para dizer de uma forma muito simplificada, sistemas modelizantes se organizam a partir de associações de signos que são definidos por sistemas semióticos. Por exemplo, no Ocidente a linguagem escrita se organiza a partir de um alfabeto – o romano – e uma orientação de escrita – de cima para baixo, da esquerda para a direita. Essa organização é um tipo de Sistema Modelizante capaz de produzir Códigos Culturais. Isso permite com que tais códigos se multipliquem, como podemos notar no caso dos diferentes idiomas ocidentais, por exemplo, nos quais usando um mesmo alfabeto e orientação, produzem-se palavras de sentido semelhantes, mas organizando as letras desse alfabeto e seus fonemas de formas absolutamente diferentes.

Para a Semiótica da Cultura os Textos não se reduzem às formalizações linguísticas, uma vez que os comportamentos sociais e as regras não expressas em leis que organizam a vida social/cultural, também são compreendiaos como textos. A maneira como você se comporta em sala de aula – normalmente com o professor à frente de pé e os alunos sentados na direção oposta – é um texto cultural. Bem como a roupa que você veste para se banhar à praia e para ir ao cinema tendem a ser diferentes porque correspondem a textos culturais diferentes, mas interrelacionados. Todos estes “Textos” interagem entre si e compõem uma dada cultura. Importante sublinhar, se não ficou suficientemente claro, que não existe uma única *Cultura, com C maiúsculo.

Uma Cultura, dentro da perspectiva semiótica desenvolvida especialmente pela Escola de Tartu, é composta por vários Textos, no sentido lotmaniano, que se organizam dentro de uma determinada Semiosfera. Estas inúmeras possibilidades de relação outorgam ao Texto um sentido ontológico diferente do hegemonizado, tornando-o partícipe da Cultura, não somente uma forma de expressão linguística, contribuindo para o deslocamento de uma pensamento demasiadamente antropocêntrico.

“El texto se presenta ante nosotros no como la realización de un mensaje en un solo lenguaje cualquiera, sino como un complejo dispositivo que guarda variados códigos, capaz de transformar los mensajes recibidos y de generar nuevos mensajes, un generador informacional que posee rasgos de una persona con un intelecto altamente desarrollado. En relación con esto cambia la idea que se tenía sobre la relación entre el consumidor y el texto. En vez de la fórmula «el consumidor descifra el texto», es posible una más exacta: «el consumidor trata con el texto». Entra en contactos con él. El proceso de desciframiento del texto se complica extraordinariamente, pierde su carácter de acontecimiento finito que ocurre una sola vez, tomándose más parecido a los actos, que ya conocemos, de trato semiótico de un ser humano con otra persona autónoma.” (LOTMAN, 1996, p. 56)

Reunião no barco: IV Escola de verão, 1970.
(Fonte: Arquivo pessoal de Serguei Nekliúdov)

* O uso do termo “Cultura” com C maiúsculo é no sentido de campo do conhecimento, como Filosofia, Matématica, etc.


Semiótica da Cultura e Semiofagia

A Semiótica da Cultura admite, ao menos desde Lotman, que os sistemas culturais se estabelecem a partir de uma relação dialógica, como descreve Irene Machado (2007, p. 16), entre o que pertence a um conjunto cultural e o que o pertence a outro. Esse processo de relação se dá na Fronteira Semiótica, seja por tensão entre semiosferas distintas, seja quando um texto de um dado sistema “entra” no outro, em um processo de Tradução Intersemiótica, quando um sistema de signos é traduzido por outro sistema de signos (por exemplo, quando um romance literário é transposto para o cinema).

Nossa hipótese é que a Semiofagia seria organizada a partir de uma dialogia própria da Antropofagia, em que cumpriria responder à questão: o que há de particular na relação dialógica da Semiofagia, que já não tenha sido descrita pela Semiótica da Cultura? O Multinaturalismo (VIVEIROS DE CASTRO, 2002). Isso porque a noção de multinaturalismo implica uma compreensão outra do humano que não a versão antropocêntrica do fenômeno. Especialmente no Campo da Comunicação, pensadores como Deleuze e Guattari têm sido retomados por terem expandido a perspectiva de análise semiótica para além da dimensão significante, reforçando a necessidade de se abordar os processos maquínicos[4] pelos quais passa a produção de sentido (a semiose). Recentemente Maurizio Lazzarato propôs a noção de “semióticas assignificantes” [5], às quais o relevante não é descobrir propriamente o significado de algo, mas seus mecanismos de produção.

Consideramos oportunio e produtivo colocar esta noção em perspectiva acom a de Semiosfera de Lotman porque traz os elementos significantes – Texto, Linguagens, Tradução, Fronteira–, que compõem a engrenagem das máquinas significantes. No que toca à dimensão assignificante, por assim dizer, seu funcionamento é inerente à semiosfera que a faz operar sob determinado regime semiótico, motivo pelo qual vemos as perspectivas em níveis de complementariedade. Além disso Lotman faz discussões teóricas que também estão imersas nas discussões relativas ao Multinaturalismo e à Antropofagia.

Trabalhar em perspectiva esta noção de máquina, nos termos apresentados, parece produtivo para compreendermos como a Máquina Antropofágica se conecta, atuamente, a expressões outras que não as da guerra, descrita pelos cronistas do século 16. Isso tudo permite com que pensemos metodologicamente a Antropofagia em perspectiva com a Antropologia, que produz o Multinaturalismo, e à Semiótica, que produz a Semiofagia. Esta última, metáfora conceitual ainda a ser melhor desenvolvida e explicada.


Notas

[1] Enquanto estivermos tratando de explicar o conceito de semiosfera de Lotman deve-se compreender a noção de cultura no sentido ocidental do termo. Para a versão final da tese, em momento oportuno, faremos os devidos tensionamentos.

[2] No original: “La semiosfera es el espacio semiótico fuera del cual es imposible la existencia misma de la semiosis. Así como pegando distintos bistecs no obtendremos un ternero, pero cortando un ternero podemos obtener bistecs, sumando los actos semióticos particulares, no obtendremos un universo semiótico. Por el contrario, sólo la existencia de tal universo — de la semiosfera — hace realidad el acto sígnico particular. La semiosfera se caracteriza por una serie  de rasgos distintivos.” (LOTMAN, 1996, p. 12)

[3] No original: “Mientras que la noosfera tiene una existencia material y espacial y abarca una parte de nuestro planeta, el espacio de la semiosfera tiene un carácter abstracto. Esto, sin embargo, en modo alguno significa que el concepto de espacio se emplee aquí en un sentido metafórico. Estamos tratando con una determinada esfera que posee los rasgos distintivos que se atribuyen a un espacio cerrado en sí mismo. Sólo dentro de tal espacio resultan posibles la realización de los procesos comunicativos y la producción de nueva información.” (LOTMAN, 1996, p. 11)

[4] “As máquinas abstratas consitem em matérias não fomadas e funções não formais. Cada máquina abstrata é um conjunto consolidade matérias-funções (phylum e diagrama). Isto se vê claramente num “plano” tecnológico: um tal plano não é composto simplesmente por substâncias formadas, alumínio, plástico, fio elétrico, etc., nem por formas organizadoras, programa, protótipos, etc., mas por um conjunto de matérias não formadas que só apresentam graus de intensidade (resitência, condutibilidade, aquecimento, estiramento, velocidade ou retardamento, indução, transdução…) e funções diagramáticas que só apresentam equações diferenciais ou , mais geralmente, “tensores”. Certamente, no seio das dimensões do agenciamento, a máquina abstrata ou máquinas abstratas efetuam-se em formas e substâncias, com estados de liberdade variáveis.” (DELEUZE, GUATTARI, 1997, p. 227)

[5] “As semióticas a-significantes não ficam prisioneiroas das significações e dos sujeitos individuados que as carregam. elas deslizam em vesz de produzir significações ou representações. Elas envolvem modos de semiotização mais abstratos do que a linguagem. Manifestam-se nos domínios das ciências, das corporações industriais, da indústria de serviços, do mercado de ações, das máquinas militares, artísticas e comunicacionais em vez de no mundo da sociedade civil, da representação política ou da democracia. (LAZZARATO, 2014, p. 72)


Créditos

Texto | Ricardo Machado
Imagem da abertura | Reprodução Vímeo, vídeo Antropofagia Pinacoteca de São Paulo


Quer saber mais?

Bem, o texto acima é uma apanhado geral e rigoroso do ponto de vista da apuração e redação, mas ainda assim simplificado sobre a Semiótica da Cultura. Se você quer aprender mesmo sobre o assunto, não tem jeito, é preciso se aprofundar nas leituras.

Abaixo deixamos algumas referências que ajudaram a compor o artigo.

Referências

ANDRADE, Oswald de. Obras Completas VI – Do Pau Brasil à Antropofagia e às Utopias. Manifestos, teses de concurso e ensaios. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1978 – 2. ed.

LAZZARATO, Maurizio. Signos, máquinas, subjetividades = Signes, machines, subjectivités / maurízio Lazzarato. São Paulo: Edições Sesc São Paulo: n-1 edições, 2014.

LOTMAN, Iuri. Cultura y explosión. Barcelona: Gedisa, 1993.

_____. Semiosfera I. Semiótica de la cultura y del texto. Madrid: Fronesis Cátedra Y Universitat de Valência, 1996.

_____. Semiosfera II. Semiótica de la cultura y del texto, de la conducta y del espacio. Madrid: Fronesis Cátedra Y Universitat de Valência, 1998.

_____. Semiosfera III. Semiótica de las arses y de las cultures. Madrid: Fronesis Cátedra Y Universitat de Valência, 2000.

MACHADO, IRENE. Circuitos dialógicos: para além da transmissa da mensagem. In: MACHADO, Irene. (org) Semiótica da Cultura e Semiosfera. São Paulo: Annablume/Fapesp, 2007. p. 57-68.

ROSÁRIO, Nísia Martins do; MACHADO, Ricardo de Jesus. Semioses em crise: problematizações entre a semiótica da cultura e o perspectivismo ameríndio. Fronteiras – Estudos Midiáticos, [s.l.], v. 21, n. 2, p. 92-101, 10 set. 2019. UNISINOS – Universidade do Vale do Rio Dos Sinos. http://dx.doi.org/10.4013/fem.2019.212.09.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. A inconstância da alma selvagem e outros ensaios de antropologia. São Paulo: Cosac Naify, 2002.


Como citar este artigo

MACHADO, Ricardo de Jesus. Semiótica da Cultura. 2020. Elaborada por Antropoafagias. Disponível em: https://antropofagias.com.br/semiotica-da-cultura/. Acesso em: 13 abr. 2020.


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