Onça do Pantanal (Foto: Leonardo Ramos /Wikimedia Commons)
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Do ventre da árvore do mundo vem O som do rugido da onça

rico machado

Quando Niimué criou o mundo, o fez a partir de seu próprio corpo. (…) Uma gigantesca jiboia circunda a cintura do mundo e se fecha, engolindo a si própria. Inhames, batatas e macaxeiras calçam seus pés, trepadeiras, troncos, cipós, orquídeas e flores de diversas cores e formatos conformam-se em peitoral, braços, pernas e sexo. Em suas unhas escarpadas de rochas e cristais irrompem folhagens ora miúdas, ora de formidável tamanho, abrindo fendas em seus corações minerais. O sexo do mundo é instável, ora macho, ora fêmea, ora macho e fêmea, ora algo que não podemos definir com palavras, esse meio insustentável para a mensagem. A aparência do mundo é também instável. Muitas vezes seu rosto se afigura como que feito de legumes e frutas, árvores milenares irrompem de protuberâncias na testa, como chifres. Muitas vezes assume o aspecto de uma grande e dessemelhante ave. Seus olhos, no entanto, são sempre faíscas multicoloridas.

Niimué ofereceu sua criação aos primeiros donos, os animais primordiais. É com eles que as pessoas precisam negociar para comer, para beber, para construir casas, edifícios, iglus, taperas, malocas, favelas. É a eles que se deve prestar contas do minério extraído até que a terra vire ferida em crosta, das caldeiras explodidas, dos carburadores entupidos, dos rios envenenados e das minúsculas partículas de plásticos que incham no ventre dos oceanos. É a eles que deveremos prestar contas. E eles cobrarão.

Da cosmovisão miranha, descrito por Micheliny Verunschk, no livro O som do rugido da onça (Cia das Letras, 2021)

Talvez a principal tarefa humana – não somente de pesquisadores ou intelectuais – na contemporaneidade seja reencantar o mundo. Trata-se de dar mais uma volta no parafuso da humanidade, repensar nossos problemas e dilemas para além da razão moderna. Demasiado tarde nos damos conta que não há cultura e natureza como entidades ou categorias previamente dadas e que seus estatutos dependem de um relacionismo (não relativismo) incontornável. O som do rugido da onça, romance de Micheliny Verunschk, é um convite a uma reflexão profunda e atenta sobre quão incivilizado é aquilo que há séculos chamamos civilização.

O livro conta a história de dois adolescentes indígenas – uma jovem da etnia Miranha e um rapaz da etnia Juri – que em 1820 foram levados à Munique, na Alemanha, após a expedição de J. B. von Spix e C. F. P. von Martius. A protagonista da história é a menina Iñe-e ou Izabella, como foi chamada pelos exploradores. Seu destino foi marcado, ainda na tenra infância, por um sumiço de sua aldeia e um encontro cosmopolítico, quando foi localizada, horas depois, próxima de uma onça.

À época era costume que algumas lideranças indígenas “trocassem” pessoas com os brancos, especialmente jovens órfãos ou filhos de inimigos capturados em combate. Esses câmbios tinham como contrapartida mercadorias e ferramentas de trabalho. Igualmente era costume dos exploradores levar “exemplares” de humanos – mas também animais e vegetais – para serem exibidos em seus países de origem. Aos propósitos científicos, somava-se uma moralidade cristã que compreendida o tráfico humano, não chamado desta forma, como um gesto de “salvação”. Tudo isso está registrado em relatórios ao rei Bávaro, a quem Spix e Martius prestavam contas.

Estela para lápide de Izabella Miranha e Juri, jovens indígenas amazônicos capturados pelos exploradores Martius e Spix (Reprodução revista acadêmica Arteologie)
Estela para lápide de Izabella Miranha e Juri, jovens indígenas amazônicos capturados pelos exploradores Martius e Spix (Reprodução revista acadêmica Arteologie)

Mais de um século e meio mais tarde, quando Roland Barthes, em sua aula inaugural no Collége de France, em 1978, disse que “a língua (…) não é nem reacionária, nem progressista: ela é, simplesmente: fascista; o fascismo não é impedir de dizer, é obrigar a dizer”, ele chamava atenção sobre como o modo sob o qual damos significação ao mundo pode ser violento. O que os diários de Spix e Martius revelam, antes das descrições etnográficas dos povos que conheceram, é a tenacidade dos humanos com algum poder – ainda que no caso dos exploradores fosse mais simbólico que econômico – em reduzir o mundo à própria perspectiva. Sob o signo da “civilidade” crianças foram arrancadas de sua terra, de seu povo e da própria vida em nome do progresso científico. E do fascismo da língua se fez objetividade científica, e da objetividade científica se fez desencantamento, e do desencantamento se fez a mais atroz das barbáries, como um ensaio macabro do que Josef Mengele faria cem anos depois, transformando humanos em experimentos.

Mas voltemos ao livro. A tragédia dos jovens nativos do Brasil capturados há 200 anos e levados para o velho mundo é o retrato da barbárie colonial. A cauda longa dos horrores civilizatórios se estende aos dias atuais e conecta os povos indígenas do passado aos do presente, em um triste fio de sangue do genocídio e etnocídio que nunca cessa. Tudo isso é tratado no livro com um lirismo que convoca o que há de melhor da tradição literária de um Meu tio o Iauaretê, de Guimarães Rosa, e de A queda do céu. Palavras de um xamã yanomami, de Davi Kopenawa.

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Representação de Izabella Miranha e Juri, jovens indígenas amazônicos capturados pelos exploradores Martius e Spix (Reprodução revista acadêmica Arteologie)

Assim como do pó viemos e ao pó voltaremos, como diz na profecia bíblica, não deixa de ser paradoxal que a barbárie constrói e destrói seus próprios monumentos. Quando o menino Juri morreu, foi feita uma autópsia e sua cabeça foi arrancada do tronco e colocada em um pote de vidro com conservantes químicos que, com o passar dos anos, a solidificaram como uma pedra. É possível que a cabeça petrificada tivesse sobrevivido até os dias atuais, não fosse o bombardeio, em 25 de abril de 1944, que lançou sua fúria sobre Munique e atingiu a sala da universidade onde estava.

Onça gosta de rio e de sombra de árvore. No começo não havia nem terra nem água. Havia uma árvore no meio do nada, com as folhas grandes, enramando pra cima e as raízes torcidas correndo pra baixo. Mas não se sabia ao certo o que era em cima e o que era embaixo, de modo que o nada era todinho tomado por aquela árvore. Árvore de toda a vida, assim se chamava. Era assim que era, e dou fé. Do alto daquela árvore nasceu o primeiro céu e o sol e a lua e todas as estrelas, porque o alto é que dá fruta. Do alto da árvore nasceu também a Onça grande, Tipai uu, o corpo dela feito da brasa das estrelas.

O som do rugido da onça, página 119

Se é do ventre da árvore do mundo que vem a onça que ruge sobre nossas cabeças, ouvir os trovões deixa de ser um exercício sensorial e transforma-se em um gesto perspectivo. E nisso está o convite que este livro nos faz, o de pensar como há histórias, como diz Itamar Vieira Junior na contracapa da publicação, que “nos parecem familiares e ao mesmo tempo distantes”. O som do rugido da onça é muito menos uma obra de realismo fantástico e muito mais um exercício de expansão das fronteiras entre a literatura ficcional, a antropologia e a historiografia. Micheliny Verunschk nos oferece, com as palavras de Iñe-e um verdadeiro tratado sobre a urgência de reencantar o mundo. É um romance belo e duro, instigante e desconfortável, histórico e cosmopolítico. Há que se abrir os ouvidos – na tentativa de ouvir os rios, o que dizem os animais e os espíritos – para que se possa ler esta obra. Há que reencantar.

Micheliny Verunshck e a capa do livro com arte de Jaider Esbell (Foto: Renato Parada / Divulgação)
Micheliny Verunshck e a capa do livro com arte de Jaider Esbell (Foto: Renato Parada / Divulgação)

Jornalista, mestre em Comunicação e Especialista em Filosofia pela Unisinos. Doutor em Cultura e Significação, pelo PPGCom da UFRGS. Escreve sobre Comunicação, Semiótica, Cultura, Antropofagia, livros e arrisca algumas linhas sobre Perspectivismo Indígena e Antropologia.

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