Imagem da capa de Hoje estarás comigo no paraísso, da editora Cia das Letras
Ensaios,  Livros

Hoje estarás comigo no paraíso, de Bruno Vieira Amaral

rico machado

“Senhor juiz, também eu sou vítima do que aconteceu ao Rego. Ele está morto, fui eu que o matei, não tenho dúvidas e sei que tirar a vida não é coisa menor, mas também sou vítima da vida que tenho, do meu trabalho, das noites que passo fora de casa, do cheiro dos caixotes do lixo, do frio e da chuva, da minha casa sempre suja e desarrumada, da minha mulher que todos os dias enlouquece mais um pouco, sou vítima de o Rego ser um bandido, sou vítima de ele não ter ficado sossegado quando lhe disse para ficar quieto, sou vítima do machado que ele empunhou para me acertar, sou vítima da faca que tinha levado comigo, nem é hábito, senhor juiz, sei lá por que é que a levei, talvez seja vítima também do destino, de quem me pôs a faca no bolso, da voz que nessa tarde me disse para levar a faca, eu não sabia para quê, mas o destino já sabia, talvez tenha sido o destino a guiar a minhã mão no escuro, só o destino, podia ver o que eu não via, a levar a lâmina ao ponto certo e fatal, talvez o destino tenha forçado o Rego a atacar-me, senhor juiz, somos todos vítimas desse crime, talvez eu também tenha morrido um pouco naquela noite, talvez, e isso é muito verdade, talvez no início daquela noite quando nos juntámos na barraca do Durão já estivéssemos todos mortos e o que aconteceu depois aconteceu depois das nossas mortes e naquela madrugada só o Rego é que não soube ressuscitar, só ele não soube fugir ao destino, foi a vítima maior, mas não se esqueça de que todos nós fomos vítimas da morte daquele homem, eu fui vítima do homicídio do Rego, senhor juiz, veja as minhas mãos, senhor juiz, vê nelas a mancha do sangue? Vê nelas a marca da morte? Estas mãos, senhor juiz, não são as mãos de um inocente, sóas mãos de uma criança são inocentes, sãs as mãos de uma vítima, condene-me, senhor juiz, dê-me o castigo que achar merecido, eu aceito, mas saiba que eu fui vítima de tudo o que me aconteceu, naquela noite e desde sempre.”

Hoje estarás comigo no paraíso – Bruno Vieira Amaral, p. 320-321

O romance de Bruno Vieira Amaral é, sobretudo, um livro sobre memória. Menos as do autor, muito embora elas sejam o fio condutor por onde se desdobra a narrativa, mas a memória de um tempo bastante específico que nos trouxe até aqui, os anos 1980. É da periferia de uma cidade periférica de Portugal, que seus personagens e tramas encontram de algum modo a periferia onde cresci, numa cidade igualmente periférica do Brasil. Daí a sintonia ímpar com que fui fisgado à obra. Se a referência ao título não é suficientemente óbvia, vale lembrar o diálogo que dá nome ao livro. Segundo a mitologia cristã, um dos condenados à crucifixação olha para Jesus Cristo e, sem rogar perdão ou misericórdia, apenas pede: “Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino” (Lucas, 23:43). Jesus responde: “Em verdade vos digo que hoje estarás comigo no Paraíso” (Lucas, 23:43). A lembrança – com suas fantasias, construções e traições – nos conduz como uma testemunha nem sempre confiável, mas a única a nos estender a mão no escuro, ao longo de toda a história. O autor nos mostra como a recordação, sobretudo daquilo e daqueles que vivem sob o tapete da história dos vencedores, pode se tornar um dos mais radicais gestos políticos que se pode ter.

Capa Hoje estarás comigo no paraíso, de Bruni Vieira Amaral
Capa da edição brasileira publicada pela Companhia das Letras

Bruno Vieira Amaral é agnóstico, como ele próprio diz, pois se reserva o direito – hoje quase profano – de dizer “não sei”. E nisso há uma beleza quase estoica de se maravilhar com o mundo naquilo que existe de inexplicável, ainda que nem tudo seja bom, que nem tudo saia bem. A obra conta a história de uma criança, que mais tarde se torna um homem, que tenta entender as circunstâncias da morte do tio, João Jorge Rego, um homem negro e marginalizado na sociedade portuguesa na penúltima década do século XX. No livro há referências a obras e autores consagrados da literatura latino-americana, como Crônica de uma morte anunciada, de Gabriel Garcia Márquez e Os sertões de Euclides da Cunha. Hoje estarás comigo no paraíso (São Paulo: Companhia das Letras, 2019) trata dessa macabra universalidade em que a terra, o homem e a luta são parte inextrincáveis da existência de quem é pobre e que dão carne e existência à avassaladora iniquidade global, o mais bem sucedido projeto neoliberal.

O livro é também um testemunho sobre como a injustiça é o destino incontornável de todos que nasceram e passaram pela vida sendo pobres. No imaginário infantil de Vieira (apesar de homônimo, o romance não é totalmente autobiográfico e o Vieira do livro não é o mesmo Vieira escritor), a criança que corria rua com seus amigos, imaginava o tio assassinado como uma figura mítica, heroica. E há um trecho rico (e atual) que traz à tona as cores e tons da injustiça cotidiana a que tantas criaturas são submetidas, tanto mais os pobres e as pessoas negras.

A injustiça das ordens gritadas, a injustiça de um homem, seu semelhante, a berrar-lhe aos ouvidos, a injustiça do sol e do suor, a injustiça de, naquela tarde e em todas as outras tardes, haver um mundo para além daquela vala, a injustiça do esforço diário, burro, rotineiro. Essa injustiça. A injustiça que todos calamos, diariamente, a caminho do trabalho, no café bebido no barco, no jornal gratuito abandonado no banco do comboio, no bolo de arroz mastigado e engolido à pressa, aquele bocado que dói e custa a ir para baixo e o copo de água para empurrar o tédio. João Jorge recusara ser vítima dessa injustiça, ser cúmplice da sua própria morte simbólica. Puta que os pariu! Enterrou a pá e foi-se embora. Puta que os pariu a todos!”

Hoje estarás comigo no paraíso – Bruno Vieira Amaral, p. 50-51.

Uma série de passagens de Hoje estarás comigo no paraíso lembram minha infância. Em vários momentos é como se eu, Vieira e João Jorge (Jorge, que aliás era o nome do meu irmão mais velho que morreu também tragicamente) vivêssemos em um mesmo espaço, como se no tempo que transcorre a história não houvesse um oceano que nos dividisse. Ao fim da leitura a sensação que se tem, depois do narrador ter vivido a infância e a adolescência e já ser um adulto a requerer nos jornais e nos fóruns judiciais informações sobre a morte do tio, é que talvez haja pouca virtude na verdade ou que talvez o preço a se pagar por ela seja mais caro que estamos dispostos a pagar.

Não se trata de igualar a verdade à mentira. Mas, sim, de admitir que nenhuma verdade é livre de consequências. E isso é uma experiência que nos toca a todos. Somos ingenuamente defensores da verdade, mas quanto de verdade somos capazes de suportar para viver? Quanto de passado – até mesmo aquele antes de nosso nascimento – somos capazes de carregar sobre os ombros? Sob quais verdades edificamos nossa memória? Qualquer um que tenha experimentado algum quinhão de vida, e que dela tenha a mínima consciência, sabe que não existem verdades impunes, toda a verdade traz a reboque a dor da realidade que a tornou possível. É como diz o autor em uma frase simples, banal, mas capaz de nos oferecer uma ótima imagem sobre o que significa, ao fim de uma jornada, encontrar a verdade: “Não se pode voltar a pôs a casca na laranja” (p. 336).

Leia um trecho da obra.


BRUNO VIEIRA AMARAL

Reprodução YouTube

Bruno Vieira Amaral nasceu em 1978, em Barreiro, Portugal. Formou-se em história contemporânea pelo Instituto Universitário de Lisboa e é romancista, crítico literário e tradutor. Seu romance de estreia, As primeiras coisas (2013) venceu a nona edição do Prémio Literário José Saramago. Hoje estarás comigo no paraíso (2017) é seu primeiro livro publicado no Brasil e conquistou o segundo lugar no Prêmio Oceanos.

Jornalista, mestre em Comunicação e Especialista em Filosofia pela Unisinos. Doutor em Cultura e Significação, pelo PPGCom da UFRGS. Escreve sobre Comunicação, Semiótica, Cultura, Antropofagia, livros e arrisca algumas linhas sobre Perspectivismo Indígena e Antropologia.

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