Céu Azul com poucas nuvens
Ensaios

Fé | #010

| A vida é uma causa perdida é uma série de textos que têm como tema as coisas inúteis da vida, que não por acaso tendem a ser, justamente, suas belezas |

rico machado

Não confunda fé com religião, tampouco com crença, como diria Jacques Ellul. A fé, como ele escreveu, “não deixa nada intacto. A única coisa que a fé me traz é o reconhecimento da minha impotência, incapacidade e inadequação”. A fé não conforta, não traz respostas, não nos tira da escuridão. A fé, no entanto, nos encoraja a caminhar no escuro.

Quando eu nasci a única expectativa real era que eu, simplesmente, não morresse. E como escrevi em algum canto da tese, não se pode ser pobre e abdicar da fé. A fé é uma maneira (torta talvez) de transportar para terra o que os teólogos chamam de “reino de deus”.

E é por causa da fé que existe um diploma de doutorado. Não foi propriamente uma fé transcendental (muito embora ela estivesse presente), mas uma fé imanente, uma fé primeiro na alfabetização, depois em uma formação profissional até chegar em um inimaginado (e quase impossível) doutorado, que ora se materializa num pedaço de papel retangular com meu nome inscrito nele.

Foi com os tijolos da fé de minha mãe, que ergui a minha própria. Foi ela quem sempre acreditou em mim, que apostou tudo em mim, que acreditou que a educação é uma forma de salvar vidas, nem tanto a nossa e mais a dos outros. Logo ela, que a vida roubou-lhe o direito de estudar, tendo começado a trabalhar de doméstica aos oito anos.

Concluir o doutorado em meio a um Brasil que despreza a educação, em que há milhares de doutores desempregados, em que dois terços da população vive com fome, em que o conhecimento científico é atacado, não parece nada alvissareiro. O Brasil dos últimos anos se transformou em uma nuvem de poeira que joga a miséria do agronegócio nos nossos pulmões.

A fé nos constrange a discernir e seguir em direção ao Outro. A fé nos obriga a caminhar no breu, a (re)transformar o Brazil no Brasil, um país que tenha como prioridade salvar os pobres. A fé, repito, nada tem a ver com religião, mas com a possibilidade de nos tornarmos Outros. Nesse mundo em que famílias inteiras são dizimadas pela pobreza, ser o último e único sobrevivente não deixa de ser um privilégio. Virar “doutor” é algo realmente incrível, sobretudo em um país que os ricos preferem os pobres mortos a terem educação de qualidade.

Jornalista, mestre em Comunicação e Especialista em Filosofia pela Unisinos. Doutor em Cultura e Significação, pelo PPGCom da UFRGS. Escreve sobre Comunicação, Semiótica, Cultura, Antropofagia, livros e arrisca algumas linhas sobre Perspectivismo Indígena e Antropologia.

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