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8 – Para que servem os commoners?

Rico Machado


Se o feudalismo marcou época com práticas sociais tiranas às quais não se deve fazer nenhuma concessão, o desenvolvimentismo desde a Primeira Revolução Industrial não ficou por menos, sobretudo em termos de exploração das populações mais empobrecidas. Some-se a isso o fato de que, diferente dos períodos feudais anteriores à organização do Estado, os trabalhadores fabris foram, pouco a pouco, perdendo a propriedade dos saberes coletivos trocados entre as comunidades.

A autora resume esse processo com uma curta e clara frase: “outra narrativa clássica, a de Marx, associa a expropriação dos commons com o que ele chama de ‘acumulação primitiva do capital’” (STENGERS, 2015, p. 73). Tal processo desemboca naquilo que chamamos atualmente de “propriedade intelectual”. Mais do que isso, tal “direito”, com as aspas de ironia insolente, assume um caráter sacrossanto. “o Estado deixa o capitalismo meter a mão no que foi definido como de domínio público, e o capitalismo faz o Estado assumir a tarefa sagrada de expulsar aqueles que infringem o agora sacrossanto direito de propriedade intelectual”. (STENGERS, 2015, p. 75).

O capitalismo convertido em sua versão cognitiva tem menos a ver, como explica a pesquisadora, com a exploração da força de trabalho, e mais com o processo de naturalização da apropriação do que é comum. os saberes, as sementes, as práticas comuns passam a operar sob o signo da patente e da propriedade. os impactos gerados por essas transformações levam à extinção de modos de vida.

“(…) o que foi destruído com os Commons não foram apenas meios de vida de camponeses pobres, mas também uma inteligência coletiva concreta ligada a esse comum do qual todos dependiam” (STENGERS, 2015, p. 79).

Os commoners, e Stengers fala dos programadores como um exemplo (mas não como sujeitos exemplares), são aqueles cuja existência e produção dependem uns dos outros, de modo que o que cada um produz importa para o outro. o que está no intervalo da produção de um e de outro commoner é o comum. (…) o capitalismo “cognitivo” não se apropria do inapropriável, mas destrói (continua a destruir) o que constitui comunidade. o “comum”, aqui, não tem de modo algum os traços de uma espécie universal humano, garantia (conceitual) de um além das oposições. Ele é o que reúne os commoners (STENGERS, 2015, p. 80).


Isabelle Stengers No tempo das catástrofes. Quinze questões e um artifício sobre a obra
1 – Crescer ou morrer, eis a questão?
2 – Pode a Ciência evitar a barbárie?

3 – Para que serve a certeza sem a perplexidade?
4 – Responder, mas responder a quem?
5 – De onde vem a brutalidade?
6 – A que Senhor servem a Ciência e o Estado?
7 – Mas isso não é da sua conta. Sim, e daí?

Jornalista, mestre em Comunicação e Especialista em Filosofia. É doutorando em Cultura e Significação na UFRGS, onde realiza pesquisa relacionando antropofagia e semiótica.

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