Ensaios,  Pesquisa

7 – Mas isso não é da sua conta. Sim, e daí?

Rico Machado


Uma maneira muito eficiente de nos fazer calar a boca é exigir as provas. “Prove que as consequências que vocês alertam vão acontecer de fato. Se forem incapazes, retirem-se daqui.” A exigência das provas ampara-se na crença de laboratório, em que um cientista experimental faz dado estudo e depois o transforma em um valor universal capaz de “explicar” (aspas de ironia) fenômenos alheios aos que ocorrem no ambiente controlado do laboratório.

Neste universo de disputa narrativa, do que pode ou não receber o status de verdade científica, não importa outras formas de saberes ancestrais dos povos ameríndios ou dos camponeses, por exemplo. É preciso dizer, com todo o sarcasmo de que somos capazes, que devemos ouvir o Engenheiro Ambiental, com seu diploma, ensinar aos indígenas o que é manejo sustentável. A Ciência só ouve diplomas, é surda para as pessoas, não importa o quanto sejamos capazes de gritar.

Em nome da ciência e de seu imperativo de objetividade, uma nova definição operante da pesquisa. Para dar apenas um exemplo, essa definição teria me excluído e ela faz com que os pesquisadores que se recusam a publicar o que se deve, onde se deve sejam fadados à marginalização (STENGERS, 2015, p. 66).

Nesse contexto, se o Estado abre mão de seu papel de defender os interesses mais amplos (as minorias políticas aí incluídas), cabe a nós o papel não de nos colocarmos contra o Estado, mas de desconfiarmos dele. Estarmos atentos às suas ações, exigir que funcione a nosso favor. Stengers (2015, p. 67) esclarece que “mais interessante – sobretudo hoje, quando a função do Estado é, antes de tudo, a mobilização para a guerra econômica, sem nenhuma referência crível ao progresso – caracterizar o que o Estado faz a essas diferentes práticas, faz àqueles que trabalham a seu serviço”.

As razões de Estado, argui a professora, estão para o capitalismo como o ovo está para a galinha, de modo que produzem um processo sistemático de exclusão daqueles que não estão a serviço de tais motivações.

Os “de fora”, os marginalizados, tendem a ser as populações orientadas à “lógica” da atenção, aos que não esqueceram a recomendação da infância “é preciso ter cuidado”. Além de tentar calar a boca, o Estado e a Ciência capturados pela perspectiva capitalista pretendem nos fazer crer que não é da nossa conta questões relativas ao progresso.

O surgimento de grupos que se metem no que não é da conta deles, que propõem, objetam, exigem participar da formulação de questões e aprendem como participar, é para ele, sempre e antes de tudo, uma “perturbação da ordem pública”, que é preciso tentar ignorar, e, se isso não for possível, será preciso produzir em seguida sua amnésia (STENGERS, 2015, p. 71).


Isabelle Stengers No tempo das catástrofes. Quinze questões e um artifício sobre a obra
1 – Crescer ou morrer, eis a questão?
2 – Pode a Ciência evitar a barbárie?

3 – Para que serve a certeza sem a perplexidade?
4 – Responder, mas responder a quem?
5 – De onde vem a brutalidade?
6 – A que Senhor servem a Ciência e o Estado?

Jornalista, mestre em Comunicação e Especialista em Filosofia. É doutorando em Cultura e Significação na UFRGS, onde realiza pesquisa relacionando antropofagia e semiótica.

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