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6 – A que Senhor servem a Ciência e o Estado?

Rico Machado


Em nossa tenra infância, uma das primeiras frases que ouvimos de todos os adultos que nos circundam, principalmente quando damos os primeiros passos, é “tenha cuidado”. Cientificamente, essa frase poderia ser compreendida por aquilo que é chamado de “princípio de precaução”. Evidentemente, a noção de “cuidado”, na ciência, assume contornos muito mais profundos. Quando se trata, no entanto, de “crescimento econômico” ou “desenvolvimento da economia”, a premissa do cuidado, que desde a infância somos instados a levar em conta, perde totalmente o valor. o que o princípio da precaução diz é o seguinte:

“Ele se limita a afirmar que, para levar em conta um risco grave e/ou  irreversível para a saúde ou para o meio ambiente, não é necessário que esse risco seja ‘cientificamente provado’” (STENGERS, 2015, p. 56).

Em uma sociedade onde os interesses de mercado prevalecem sobre quaisquer outros, sobretudo os humanos, a razão científica só tem valor quando apoia sua retórica na sustentação da regulação do próprio mercado. o que historicamente se constata é que aquilo considerado bom para o mercado desregulamentado é proporcionalmente inverso ao que é bom para a Terra e, consequentemente, para a vida. A julgar pelo fato de que a cada ano o planeta alcança mais cedo o dia da sobrecarga da terra, ou seja, sua capacidade de regenerar bens extraídos da natureza em um intervalo de 12 meses.

Os cientistas, quando declinam de suas responsabilidades de fazer valer o princípio da precaução em nome do financiamento de suas pesquisas, deixam bem claro a quem servem. O Estado segue o mesmo caminho, oferecendo um porto seguro ao mercado a cada crise econômica, que ocorre a ciclos cada vez menores e mais intensos.

O tempo das catástrofes fez emergir o Empresário, aquele com E maiúsculo. “Com a figura do Empresário outras duas aparecem, pois o Empresário exige, mas é preciso que sua exigência seja ouvida. Essas duas figuras são o Estado e a Ciência” (STENGERS, 2015, p. 59). Não bastassem os dois clássicos tiranos, o Estado e o Mercado, a Ciência assume o papel de terceiro ladrão. Evidentemente nem toda ciência se presta a esse trabalho, mas aquela feita por “especialistas de mercado” sim, aquela que é aceita tanto pelo Estado quanto pelo Mercado.

(…) para opor os especialistas (a serviço do poder) e os pesquisadores (desinteressados), mas porque com a articulação Empresário-Estado- Ciência estamos bem próximos da lenda dourada que prevalece quando se trata da “irresistível escalada de poder do ocidente”. Essa lenda põe efetivamente em cena a aliança decisiva entre racionalidade científica, mãe do progresso de todos os saberes, o Estado que se livrou enfim das fontes de legitimidade arcaicas que impediam essa racionalidade de se desenvolver, e o crescimento industrial que a traduzem princípio de ação eficaz (STENGERS, 2015, p. 61).


Isabelle Stengers No tempo das catástrofes. Quinze questões e um artifício sobre a obra
1 – Crescer ou morrer, eis a questão?
2 – Pode a Ciência evitar a barbárie?

3 – Para que serve a certeza sem a perplexidade?
4 – Responder, mas responder a quem?
5 – De onde vem a brutalidade?

Jornalista, mestre em Comunicação e Especialista em Filosofia. É doutorando em Cultura e Significação na UFRGS, onde realiza pesquisa relacionando antropofagia e semiótica.

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