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5 – De onde vem a brutalidade?

Rico Machado


A transformação dos verbos “inovar” e “empreender” em imperativos morais são ilustrativos de como na disputa narrativa o capitalismo foi produzindo um deslocamento semântico para a ordem do molar. Isto é, tenta fazê-lo operar a partir da psicologia social do indivíduo. Melhor seria compreendê-lo “como um funcionamento, ou uma máquina, que fabrica a cada conjuntura sua própria necessidade, seus próprios atores, e destrói aqueles que não souberam abraçar as novas oportunidades” (STENGERS, 2015, p. 46).

Produzimos uma espécie de inversão em nossa compreensão sobre o transcendente e o imanente, de modo que o capitalismo tem menos a ver com uma fé no materialismo e muito mais a ver com uma espécie de crença transcendental que as pessoas depositam no desenvolvimento como “única” alternativa possível para o futuro, apesar de todas as circunstâncias indicarem o contrário. De outro lado, Gaia, compreendida apenas como “repositório” de recursos, é vista somente em sua dimensão imanente, quando, na verdade, deveríamos ver nela, e em sua intrusão, um ser – imanente e transcendente – capaz de nos causar os mais terríveis temores. Se a brutalidade com que Gaia responde às nossas agressões não assusta, o é principalmente porque acreditamos no poder messiânico da resposta que o capitalismo dá à intrusão de Gaia.

A brutalidade de Gaia corresponde à brutalidade daquilo que a provocou, a de um “desenvolvimento” cego às suas consequências, ou, mais precisamente, que só leva em conta suas consequências doponto de vista das novas fontes de lucro que elas podem acarretar.

(…) Lutar contra Gaia não tem sentido, trata-se de aprender a compor com ela. Compor com o capitalismo não tem sentido, trata-se de lutar contra seu domínio (STENGERS, 2015, p. 47).

A visão épica do materialismo colocou o ser humano, mais precisamente o Homem – enquanto gênero e categoria sociológica –, como o ser que deveria dominar a natureza e os outros animais, pelo menos desde o Gênesis bíblico5, o que se daria por meio do trabalho humano. Entretanto, como sustenta a autora, “Teremos sempre que contar com Gaia, que aprender, à maneira dos povos antigos, a não ofendê-la” (STENGERS, 2015, p. 53).


Isabelle Stengers No tempo das catástrofes. Quinze questões e um artifício sobre a obra
1 – Crescer ou morrer, eis a questão?
2 – Pode a Ciência evitar a barbárie?

3 – Para que serve a certeza sem a perplexidade?
4 – Responder, mas responder a quem?

Jornalista, mestre em Comunicação e Especialista em Filosofia. É doutorando em Cultura e Significação na UFRGS, onde realiza pesquisa relacionando antropofagia e semiótica.

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