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4 – Responder, mas responder a quem?

Rico Machado


Isabelle é categórica ao afirmar que não é à Gaia que devemos responder, mas postular respostas em tom interrogativo a quem causou a intrusão de Gaia. Dizer Gaia, dar nome a este ser, não significa postular uma verdade, mas “atribuir àquilo que se nomeia o poder de nos fazer sentir e pensar no que o nome suscita” (STENGERS, 2015, p. 37). Para a autora é importante resistirmos à tentação de produzirmos oposições radicais entre o que conhecemos como “Ciência” e sobre outras ordens de saberes.

Mais do que o encadeamento de uma série de processos, Gaia é um ser. Deveríamos reconhecê-la como tal. “(…) ela é dotada não apenas de uma história, mas também de um regime de atividades próprio oriundo das múltiplas e emaranhadas maneiras pelas quais os processos que a constituem são articulados uns aos outros”. (STENGERS, 2015, p. 38). É preciso, por outro lado, tentar fugir do lugar comum que imagina a Terra, ou Gaia, com a imagem romântica de uma mãe afável e dócil (ainda que ela também não seja vingativa). Gaia responde aos nossos estímulos, caberia a nós, repetir o gesto tupinambá, vingar-nos daqueles que despertam a fúria de Gaia.

Ela tampouco busca fazer justiça, afinal de contas as regiões mais empobrecidas do planeta tendem a ser as primeiras a ser impactadas pelos efeitos de nossa agressão à Gaia. Tampouco é à Gaia que devemos nos reportar, mas a quem a agride, eles é quem devem nos dar respostas do porquê nos incluem em seus projetos ecocidas.

As questões a serem respondidas, como lembra Stengers, é por que continuamos obcecados em agredir um ser que é surdo às nossas explicações, por que continuamos a apostar no crescimento. É tolice interpelar Gaia, “Ela não nos pede nada” (STENGERS, 2015, p. 41). Talvez pareça mais interessante pararmos de ouvir os cientistas do imperativo desenvolvimentista e passarmos a questioná-los em suas proposições, sobretudo aqueles que pretendem apresentar respostas globais à intrusão de Gaia.

O progresso científico tornou os reis ou estadistas descartáveis, prescindimos de suas tiranias, temos algo bem mais eficiente: os especialistas, que são muito capazes, capazes de tudo, inclusive de sujar as próprias mãos de sangue em nome da ordem e do progresso. Os economistas [que parecem ocupar o topo da pirâmide dos especialistas, grifo nosso] e outros candidatos à produção de respostas globais fundadas na “ciência” só existem para mim como poder de prejudicar. A autoridade deles só existe na medida em que o mundo, nosso mundo, permaneça como está – ou seja, fadado à barbárie.

Suas “leis” supõem, antes de tudo, que “nós” fiquemos em nosso lugar, desempenhemos os papéis que nos são atribuídos, tenhamos o egoísmo cego e a incapacidade congênita de pensar e de cooperar (STENGERS, 2015, p. 44).


Isabelle Stengers No tempo das catástrofes. Quinze questões e um artifício sobre a obra
1 – Crescer ou morrer, eis a questão?
2 – Pode a Ciência evitar a barbárie?

3 – Para que serve a certeza sem a perplexidade?

Jornalista, mestre em Comunicação e Especialista em Filosofia. É doutorando em Cultura e Significação na UFRGS, onde realiza pesquisa relacionando antropofagia e semiótica.

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