Ensaios,  Pesquisa

3 – Para que serve a certeza sem a perplexidade?

Rico Machado


Colocarmo-nos contra aqueles que aprendemos a chamar de “nossos responsáveis” em uma oposição radical não parece ser produtivo. Precisamos, entretanto, assumir uma territorialidade fora do campo semântico mobilizado por tais atores. Não é a certeza de que eles estão equivocados que produzirá saídas, mas nossa perplexidade cética diante de suas respostas. Demonstrar desconforto e desconfiança tende a ser mais produtivo, pois gera instabilidade e não abastece o moinho da “guerra cultural” discursiva, em que o eles e o nós funcionam como polos, no mais das vezes vazios.

O lema positivista, que em nossa baneira nacional foi amputado ordem e progresso –, bem poderia servir como mote da Ciência, aquela com C maiúsculo. Nosso papel é estar do lado das práticas científicas em sua diversidade de perspectivas e métodos, colocando-se contra a ciência reduzida aos interesses do capital. Contra a ordem, em favor do questionamento público, da sociedade civil organizada que coloca em causa o imperativo autoritário, tanto menos pela desobediência civil, tanto mais pela perplexidade diante dos avanços tecnocientíficos. Contra o progresso (compreendido como aumento das cadeias produtivas), em favor de toda a sorte de produtores rurais, de movimentos slow food, veganismos, movimentos indigenistas, entre outros.

Retomando propriamente o texto de Stengers, ela lembra o caso dos Organismos Geneticamente Modificados – OGMs, que mobilizaram centenas de cientistas em torno de interesses corporativos, tiveram amplo apoio midiático, mas que, mesmo assim, tiveram de enfrentar, e ainda mais hoje, embates importantes com a população civil. O caso dos OGMs é emblemático para compreender como o neoliberalismo transforma a ciência em “economia do conhecimento”. Isso porque as sementes, um bem comum e natural, resultado do processo evolutivo do reino vegetal e compartilhado por todas as civilizações de todos os tempos, transforma-se em um ativo financeiro a favor da indústria química e contra o restante da população mundial, composta, cabe lembrar, de seres humanos, animais e vegetais.

Os oGMs colocam em causa e apresentam de uma maneira muito didática a contradição da palavra de ordem (no marketing chamado de slogan) “a ciência a serviço de todos” (STENGERS, 2015, p. 31).

Quando as palavras de ordem adquirem o status de “valor moral”, tal qual tem se praticado com o termo “progresso” ou “desenvolvimento”, o termo “inovação” transforma-se, no melhor dos casos, em uma distorção que o confunde com a liberdade de destruir um planeta cada vez menos explorável; e, no pior dos casos, simplesmente o transforma numa mentira.

O progresso enquanto valor moralizante (não confundir com valor ético) e palavra de ordem é absolutamente claro em seu significado prático, mas ao mesmo tempo obtuso em relação a suas consequências, porque esconde uma premissa de base que é, antes de tudo, arbitrária e equivocada, postulada em tom de questionamento por Isabelle Stengers (2015, p. 34): “o que definiu a Terra como recurso explorável de forma ilimitada”.

Mais do que respondermos às questões contemporâneas diante de uma perspectiva antropocêntrica, a resposta que Gaia nos exige é a de como interromper o ciclo destrutivo que leva à catástrofe inúmeras outras espécies alheias aos nossos modos de vida eticamente irracionais. Como propõe Stengers (2015, p. 35), “Aquilo para o que temos que criar uma resposta é à intrusão de Gaia”. Em suma, intrusão de Gaia é como a autora chama o Antropoceno.


O texto na íntegra podeser acessado neste link ou, se preferir, acesse cada um dos textos em separado.

Outros textos

Isabelle Stengers No tempo das catástrofes. Quinze questões e um artifício sobre a obra
1 – Crescer ou morrer, eis a questão?
2 – Pode a Ciência evitar a barbárie?

Jornalista, mestre em Comunicação e Especialista em Filosofia. É doutorando em Cultura e Significação na UFRGS, onde realiza pesquisa relacionando antropofagia e semiótica.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *