Ensaios,  Pesquisa

2 – Pode a Ciência evitar a barbárie?

Rico Machado


A Ciência, esta que se escreve com C maiúsculo, quase como substantivo próprio, que se constituiu a partir da ruptura com as crenças teocêntricas, colocando em seu lugar a razão humana, não nos parece ser capaz de evitar a barbárie. Ao contrário, é ela quem a produz. Ao mesmo tempo em que faz proliferar eufemismos como “desafio”. Essa é uma palavra inventada pelos especialistas para dizer que, mesmo com a catástrofe anunciada de nossos modos de vida capitalistas, não há alternativa,é preciso encará-lo.

Aqueles que, com os olhos brilhando confiam no mercado, em sua capacidade de triunfar sobre o que já não podem negar mas que chamam de “desafios”, perderam qualquer credibilidade, no entanto isso certamente não basta para dar ao futuro uma chance de fugir da barbárie (STENGERS, 2015, p. 18).

Se a catástrofe assumiu, nesse mundo, o apelido de desafio, caberá a nós produzir outros mundos, isto é, fazê-lo existir de outra maneira. Para isso, no entanto, resta-nos superar as travas impostas pela Ciência, que desautoriza centenas de milhares de pessoas em nome das palavras de ordem dos especialistas. Trata-se da redução da ciência à economia do conhecimento, transformando a barbárie em algo inevitável. Isso porque a Ciência, tal qual a concebemos e conhecemos, não nos deu, até agora, nenhuma garantia de que pode dar respostas sofisticadas sobre o futuro, mas produz a todo instante palavras de ordem que expressam a crença no “des-envolvimento” (NODARI, 2017, p. 2).

(…) o que parece ser uma palavra de ordem vazia para ser utilizada em grandes relatórios sobre os desafios da época (“nossa economia é, a partir de agora, uma economia do conhecimento…”) designa, na verdade uma forte reorientação das políticas de pesquisa pública, que fazem, especialmente, da parceria com a indústria uma condição crucial dos financiamentos de pesquisa. E isso significa dar à indústria o poder de dirigir diretamente a pesquisa e ditar seus critérios de êxito (o registro de patentes, notadamente) (STENGERS, 2015, p. 19).

Em que pesem os cínicos apelos daqueles que detêm o poder de dizer que “devemos ser firmes e aguentar” e que nos devolvem a questão que lhes compete responder – “o que vocês fariam em nosso lugar?” (STENGERS, 2015, p. 21) –, damos-lhes o nosso riso e nosso escárnio. Se tal resposta parece deselegante, melhor que o seja, pois a outra opção seria apostar no consumo consciente e na palavra de ordem: “Consumam, o crescimento depende disso” (STENGERS, 2015, p. 22).


O texto na íntegra podeser acessado neste link ou, se preferir, acesse cada um dos textos em separado.

Outros textos

Isabelle Stengers No tempo das catástrofes. Quinze questões e um artifício sobre a obra
1 – Crescer ou morrer, eis a questão?

Jornalista, mestre em Comunicação e Especialista em Filosofia. É doutorando em Cultura e Significação na UFRGS, onde realiza pesquisa relacionando antropofagia e semiótica.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *