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1 – Crescer ou morrer, eis a questão?

Rico Machado


Um Hamlet isabelliano, isto é, aquele escrito por Stengers, teria como questão existencial a seguinte pergunta: crescer ou morrer, eis a questão? o problema, no entanto, é que, diferente da versão tradicional, shakespeariana, não cabe mais somente a Hamlet a escolha. Mas voltemos uns passos atrás para explicarmos como chegamos a tal questão. o primeiro capítulo do livro (e os capítulos não têm títulos, são apenas divisões numéricas) versa sobre como a catástrofe se tornou globalizada. A versão brasileira da publicação chegou às estantes em 2015, pela antiga editora Cosac & Naify, sete anos depois da primeira versão em francês. A autora conta que quando encerrava a escritura e revisão final do texto, em meados de outubro de 2008, as bolsas de valores haviam entrado em colapso e o governo dos Estados Unidos estava sendo convocado a salvar os atingidos pela catástrofe econômica que se anunciava. Mas a convocação era para salvar quem? As pessoas? Claro que não. Salvar os bancos.

Junto com a urgência de salvar a economia, vem junto a noção de que é imperativa a austeridade como política pública, que é preciso persistir, que não há outra escolha senão a de que o crescimento é a única saída – a despeito de tudo o que isso significa, da exploração ambiental à exploração das vidas humanas. Mas é justamente esse o problema central, uma vez que o crescimento nos levará ao inevitável fim da linha. Como diz a autora, “o que sabemos agora é que, se aguentarmos firme e continuarmos a ter confiança no crescimento, vamos, como se diz, ‘dar de cara com a parede’” (STENGERS, 2015, p. 9).

O que os especialistas nos dizem é que precisamos acreditar no crescimento (o que quer que isso signifique). E nos interpelam com palavras de ordem cada vez mais claras, mas com perspectivas tanto mais obtusas. Se a barbárie nos avizinha, não podemos confundi-la com a versão grega, dos chamados povos incivilizados, como relata Stengers, mas termos em mente que se trata daquela

que, produzida pela história da qual tivemos tanto orgulho, foi caracterizada em 1915, por Rosa Luxemburgo em um texto escrito na prisão, quando “milhões de proletários de todas as línguas caem no campo da vergonha, assassinam seus irmãos, rasgam a própria carne com um canto de escravos nos lábios”. (STENGERS, 2015, p. 13).

Rosa Luxemburgo apostava que as saídas seriam ou o socialismo ou a barbárie. Como diz Stengers (2015, p. 13), “não aprendemos grande coisa com o socialismo”, mas nos tornamos letrados na ladainha facínora de que não temos escolha, que o crescimento é a única saída. Em 2005, o Furacão Katrina devastou a cidade de New Orleans, na Louisiana, nos Estados Unidos. Exemplo tácito da barbárie de nossos tempos não foi o episódio climático, mas a resposta dada ao evento: “abandono dos pobres, enquanto os ricos encontravam abrigo” (STENGERS, 2015, p. 14).

No fundo, esse é o que poderíamos chamar de imperativo categórico do tempo das catástrofes, em que a escolha está em crescer ou morrer, mas apenas uma das alternativas é, por assim dizer, “democrática” e não por acaso a mais cruel. Diante dos novos tempos, a autora sugere que, dado que nossas crenças históricas nos colocaram em suspenso, devemos procurar criar uma vida, uma forma de vida, para “‘depois do crescimento econômico’, uma vida que explora conexões com novas potências de agir, sentir, imaginar e pensar” (STENGERS, 2015, p. 15).


O texto na íntegra podeser acessado neste link ou, se preferir, acesse cada um dos textos em separado.

Outros textos

Isabelle Stengers No tempo das catástrofes. Quinze questões e um artifício sobre a obra

Jornalista, mestre em Comunicação e Especialista em Filosofia. É doutorando em Cultura e Significação na UFRGS, onde realiza pesquisa relacionando antropofagia e semiótica.

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