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Sobrevivendo à temperatura da destruição. Filosofia do Fim do Mundo debate o pensar em meio às catástrofes

Rico Machado
Imagem: Obra “Black cloud” (2013), de Fabian Bürgy (Divulgação)


Pensar a catástrofe e pensar em meio à catástrofe tem lá suas, nenhum pouco sutis, diferenças. É diante de um cenário catastrófico que o I Seminário Filosofia do Fim do Mundo será realizado nesta semana, de 18 a 22 de março, no formato webnário, reunindo pesquisadores, literalmente, do Norte a Sul do Brasil, de Roraima ao Rio Grande do Sul. “O Seminário Filosofia do Fim do Mundo é um incentivo, uma doação de ânimo para diversas pessoas continuarem com suas pesquisas, mas também nutrir-se de perspectiva e entusiasmo para ‘adiar o fim do mundo’”, pontua Mateus Uchôa, um dos organizadores do evento, em entrevista por e-mail ao Antropofagias.

“Sou partidário da tese de que ‘sem catástrofe não há representação’, não há o que representar. Mas ao mesmo tempo o acontecimento da catástrofe impede, dificulta sua interpretação; isso define um problema central para a literatura, a filosofia, a arte e as disciplinas humanas em geral em nossos dias”, provoca o entrevistado. “É uma situação conflitante que torna a filosofia um tipo de saber intempestivo, parafraseando Dostoiévski, que sobrevive na temperatura de sua destruição”, complementa.

No fundo, não há necessidade de viver a catástrofe, perceber na pele, na cultura e no próprio planeta suas consequências ou, como explica Uchôa, “reconhecer as circunstâncias traumáticas da experiência”. Contudo, o choque de realidade da pandemia mundial que vivemos nos joga dentro da catástrofe em seu sentido profundo, embora nem sempre admitido por todos. “Um evento como a pandemia de covid-19 provoca um trauma, mas trauma também significa friccionar, ‘passar através’. E considero o seminário uma forma potente e sofisticada de atravessarmos tudo isso que nos atinge”, pondera.

Matheus Uchoa, em conferência no Porto das Artes (Foto: Té Pinheiro)

Mateus Vinicius Barros Uchôa possui graduação em Filosofia pela Universidade Federal do Ceará e mestrado em Filosofia pela Universidade Federal do Ceará com estágio discente complementar do programa PROCAD pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. É também mestre em Artes pela Universidade Federal do Ceará, com ênfase em arte contemporânea. Desenvolveu pesquisa de doutorado na linha de Estética e Filosofia da Arte pela Universidade Federal de Minas Gerais.

Leia a entrevista.

a} – O que é o seminário Filosofia do Fim do Mundo?

Mateus Uchôa – O seminário (mas já me disseram que o termo correto seria “webnário”) Filosofia do Fim do Mundo é o primeiro evento com sessões de comunicações e conferências completamente on-line do país. O evento conta com uma programação robusta, que se realizará durante uma semana. Acredito que seja o primeiro dessa natureza. Mas além de questões técnicas e formais o seminário Filosofia do Fim do Mundo é um incentivo, uma doação de ânimo para diversas pessoas continuarem com suas pesquisas, mas também nutrir-se de perspectiva e entusiasmo para “adiar o fim do mundo”.

a} – Quais são os eixos, em sentindo amplo, que serão debatidos ao longo da semana nas mesas temáticas?

Mateus Uchôa – Dividimos as comunicações nos seguintes eixos temáticos: Teoria Queer e Ontologia Contemporânea; Feminismos e Interseccionalidade; Escatologia e Filosofia do Antropoceno; Tempo e Filosofia do Apocalipse ; Estética e Comunicação; Totalitarismo e Fascismo; Ecologias e Modos de Vida; Pensamento Indígena e Crise Ambiental; Artes no fim do mundo; Pensamento Decolonial e Arte Contemporânea.

Ao todo serão cinco mesas das conferências-lives dispostas com os temas: Filosofia feminista e latinoamericana; Pensamento da Catástrofe; Crise capitalista contemporânea; Mundo Indígena e Arte Contemporânea; Antropoceno e Crise Ecológica.

a} – Como se organizam as Comunicações? Quem está participando e quais são os assuntos discutidos?

Mateus Uchôa – Ao todo serão dez sessões de Comunicações, pelos turnos da manhã e da tarde. Duas sessões por dia contendo em média cinco apresentações cada. Inscreveram-se pesquisadores de diversas áreas: filosofia, direito, antropologia, artes, ciências da natureza. Os temas dos trabalhos abordam o Antropoceno. Artes no fim do mundo. Crise ecológica. Viradas ontológicas. Pensamento ameríndio. Crise econômica. Decolonialidade. Gênero, feminismo, teoria queer. Pensamento afrodiaspórico. Pensamento latino-americano. Totalitarismo e fascismo.

a} – De que forma o Fim do Mundo tornou-se, não somente um fato possível, mas uma agência de pensamento, principalmente neste momento de pandemia global?

Mateus Uchôa – Introduzir a catástrofe e o fim do mundo na filosofia não é nenhuma novidade. O terremoto de Lisboa, em 1755, foi um evento “irrepresentável” que deixou marcas na reflexão filosófica do século XVII, por exemplo, no caso de Voltaire que questionou a doutrina do livre-arbítrio em função daquele evento. Mas agora, mais e mais passamos a ver no mundo real, no cotidiano, a materialização mesma da catástrofe. Sou partidário da tese de que “sem catástrofe não há representação”, não há o que representar. Mas ao mesmo tempo o acontecimento da catástrofe impede, dificulta sua interpretação; isso define um problema central para a literatura, a filosofia, a arte e as disciplinas humanas em geral em nossos dias.

É uma situação conflitante que torna a filosofia um tipo de saber intempestivo, parafraseando Dostoiévski, que sobrevive na temperatura de sua destruição. A formação de significados sobre o fim do Mundo revela o paradoxo de um conhecimento voltado para o que de há de mais marcante na experiência, contudo destinado a perder sua “especificidade” no exato momento que pretende torná-lo (o fim) compreensível. Não há necessidade de atravessar uma catástrofe, no sentido histórico, biológico e geológico do termo para reconhecer as circunstâncias traumáticas da experiência. A palavra “catástrofe” significa em grego “virada para baixo”, “desabamento” – aquilo que para a cosmologia yanomami se prediz como “A Queda do Céu”. Eu gosto desse significado para a modulação do pensamento contemporâneo. É como um “chamado” da vida, do mundo material para descermos do “mundo das nuvens” cujo espírito e totalidade colapsaram. Um evento como a pandemia de covid-19 provoca um trauma, mas trauma também significa friccionar, “passar através”. E considero o seminário uma forma potente e sofisticada de atravessarmos tudo isso que nos atinge.

a} – Qual foi a inspiração para a realização do evento?

Mateus Uchôa – A inspiração é dada pelo acontecimento que estamos passando, a pandemia de covid-19, mas o evento foi pensamento à luz de alguns pensadores e pensadoras contemporâneos que tematizam a questão dos limites do mundo humano, o Antropoceno, a Emergência Climática, a Necropolítica. Os trabalhos de Donna Haraway, Deborah Danoswski, Anna Tsing, Eduardo Viveiros de Castro, Isabelle Stengers e Bruno Latour certamente inspiram a temática do evento.

a} – Quais são os planos para o futuro, haverá novas edições?

Mateus Uchôa – Houve tanta procura de pessoas dispostas para colaborar com o evento que optamos por uma segunda edição já para o mês de junho. Isso faz do Seminário Filosofia do Fim do Mundo uma grande jornada de interação com criadores e pesquisadores de diversas regiões do Brasil. Para nossa primeira edição contamos com a participação de pessoas desde Roraima até o Rio Grande do Sul. Penso que está se formando uma rede solidária de pensamento com subjetividades e corpos dispostos a encarar o porvir de modo mais consciente e propositivo. Num momento de delicada situação da educação em nosso país, o evento é um ato de resistência, sobretudo das humanidades que vêm recebendo constantes ataques por parte das políticas do governo Bolsonaro. Se querem fazer algo inglório é nosso dever contra-efetuar todas as medidas que visam a desvalorização do conhecimento em nosso país.


Serviço

I Seminário Filosofia do Fim do Mundo

Período: 18 a 22 de maio de 2020
Programação completa: https://tinyurl.com/yada9k2w
Comunicações: https://meet.jit.si/FilosofiaDoFimDoM…
Horário: 9:00 às 12:00 e 14:00 às 17:00
Mesas: https://www.facebook.com/filosofiaonface
Horário: 19 horas
Realização: Grupo de Estudos Pós-coloniais (uece) Laboratório de arte contemporânea (ufc) Laboratório de estética e filosofia da arte (ufc)
Curadoria: Mateus Uchôa e Lucas Dillacerda



Jornalista, mestre em Comunicação e Especialista em Filosofia. É doutorando em Cultura e Significação na UFRGS, onde realiza pesquisa relacionando antropofagia e semiótica.

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